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Mostrando postagens de março, 2026

A inflação do biopsicossocial: quando o conceito vira retórica e a técnica vira ficção

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A inflação do biopsicossocial: quando o conceito vira retórica e a técnica vira ficção O cenário contemporâneo das políticas de proteção social e dos direitos das pessoas com deficiência no Brasil é marcado por uma onipresença terminológica que, embora aparente um avanço civilizatório, oculta tensões epistemológicas e metodológicas profundas. O termo “biopsicossocial”, outrora um conceito denso e rigorosamente ancorado nos paradigmas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), atravessa um processo de inflação semântica. 1 Esta inflação não é um mero detalhe linguístico; ela representa o esvaziamento de um conteúdo científico em favor de uma conveniência institucional que transforma a técnica em uma espécie de ficção burocrática. Ao se tornar um significante que tudo nomeia para legitimar processos de avaliação muitas vezes precários, o biopsicossocial perde sua capacidade de distinguir realidades, compromete...

Da Máquina de Moer Gente à Disputa de Hegemonia: notas sobre estrutura, privilégio e consciência no Brasil contemporâneo

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Da Máquina de Moer Gente à Disputa de Hegemonia: notas sobre estrutura, privilégio e consciência no Brasil contemporâneo O Brasil não é apenas um país desigual; é uma engenharia histórica de desigualdades sofisticadas. Uma máquina social que, ao longo de séculos, naturalizou hierarquias, estetizou privilégios e institucionalizou a exploração. Não se trata apenas de pobreza, mas de uma arquitetura de poder. A experiência concreta — vivida nos espaços domésticos, nos gestos cotidianos, nas divisões invisíveis como “o quartinho dos fundos” — revela aquilo que a teoria muitas vezes abstrai: a desigualdade brasileira não é apenas econômica, é também simbólica, cultural e moralmente legitimada. Nesse sentido, o que se convenciona chamar de “ordem social” sempre funcionou como uma engrenagem de extração, onde muitos operavam a máquina sem necessariamente reconhecê-la como tal. Aqui, a crítica de Karl Marx permanece atual: as relações sociais de produção não apenas organizam a economia, mas m...

Aos parasitas que se alimentam do sangue da classe trabalhadora

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Aos parasitas que se alimentam do sangue da classe trabalhadora. Há, no subsolo da formação social brasileira, um pacto silencioso — não assinado, mas reiterado geração após geração — que organiza a desigualdade não como acidente, mas como princípio. O que se apresenta na superfície como desordem, carência ou falha moral dos indivíduos, revela-se, à luz de uma análise mais rigorosa, como engrenagem meticulosamente ajustada de produção da dependência. Desde a abolição formal da escravidão, operou-se uma transmutação perversa: da sujeição jurídica explícita à exclusão estrutural dissimulada. Libertos, mas não integrados; reconhecidos em abstrato, mas negados em concreto. A liberdade concedida sem lastro material converteu-se em ironia histórica — um gesto jurídico que ocultava a recusa deliberada de incorporar milhões à condição de sujeitos econômicos e políticos. Terra, crédito, instrução: negados. Sobrevivência: improvisada. Enquanto isso, sob o manto de uma ideologia civilizatória, f...

O Campo de Forças da Desigualdade Brasileira: Uma Anatomia Crítica das Camadas Sociais e os Mecanismos de Reprodução de Poder. Delmont - 2015

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  O Campo de Forças da Desigualdade Brasileira - Uma Anatomia Crítica das Camadas Sociais e os Mecanismos de Reprodução de Poder O Campo de Forças da Desigualdade Brasileira: Uma Anatomia Crítica das Camadas Sociais e os Mecanismos de Reprodução de Poder A estrutura social brasileira contemporânea não pode ser apreendida por meio de modelos estáticos de estratificação ou pela metáfora liberal do “elevador social”. Em vez disso, a realidade nacional revela-se como um campo de forças dinâmico, histórico e inerentemente conflituoso, onde a manutenção de privilégios e a reprodução da subcidadania operam através de mecanismos sofisticados de captura econômica, política e simbólica. 1 Este relatório analisa a arquitetura das camadas sociais no Brasil, partindo da premissa de que o conflito não é um desvio da normalidade democrática, mas o motor fundamental da história, conforme a máxima hegeliana de que o negativo é o que move a realidade em direção ao seu amadurecimento ético e institu...