Aos parasitas que se alimentam do sangue da classe trabalhadora

Aos parasitas que se alimentam do sangue da classe trabalhadora.

Há, no subsolo da formação social brasileira, um pacto silencioso — não assinado, mas reiterado geração após geração — que organiza a desigualdade não como acidente, mas como princípio. O que se apresenta na superfície como desordem, carência ou falha moral dos indivíduos, revela-se, à luz de uma análise mais rigorosa, como engrenagem meticulosamente ajustada de produção da dependência.

Desde a abolição formal da escravidão, operou-se uma transmutação perversa: da sujeição jurídica explícita à exclusão estrutural dissimulada. Libertos, mas não integrados; reconhecidos em abstrato, mas negados em concreto. A liberdade concedida sem lastro material converteu-se em ironia histórica — um gesto jurídico que ocultava a recusa deliberada de incorporar milhões à condição de sujeitos econômicos e políticos. Terra, crédito, instrução: negados. Sobrevivência: improvisada.

Enquanto isso, sob o manto de uma ideologia civilizatória, fomentava-se a inserção de outros contingentes populacionais com incentivos concretos, acesso à terra e possibilidades reais de ascensão. Não se tratava de benevolência, mas de cálculo: substituir, reorganizar, redefinir a força de trabalho de modo mais conveniente à lógica da acumulação.

É nesse ponto que se revela o núcleo duro da contradição brasileira: uma elite que não apenas se beneficia da desigualdade, mas que a necessita como condição de sua própria reprodução. Não há aqui ingenuidade histórica, tampouco mero atraso; há racionalidade. A pobreza não é um resíduo — é um recurso.

E como todo recurso, é gerido.

Para tanto, não basta explorar economicamente; é preciso legitimar simbolicamente. Entram em cena os dispositivos de estigmatização: racismo, preconceito de classe, transfobia, misoginia. Não como desvios morais isolados, mas como tecnologias sociais de fragmentação. Divide-se para governar, hierarquiza-se para estabilizar, desumaniza-se para explorar sem culpa.

O resultado é a produção sistemática do “quase cidadão”: aquele que existe juridicamente, mas não participa plenamente da vida social; que trabalha, mas não acumula; que vive, mas sob constante ameaça de precariedade. Um sujeito reduzido à sua utilidade econômica — descartável quando excedente, necessário quando escasso.

Aqui, a dominação atinge um grau de sofisticação inquietante: ela dispensa, em grande medida, a coerção explícita. Internaliza-se. Naturaliza-se. Reproduz-se nos gestos cotidianos, nas instituições, nas políticas públicas insuficientes ou mal desenhadas. O oprimido, por vezes, passa a operar dentro da lógica que o oprime — não por escolha livre, mas pela ausência de alternativas historicamente construídas.

Eis a armadilha: a desigualdade deixa de parecer construção e passa a ser percebida como destino.

No entanto, toda ordem que se pretende eterna carrega em si a semente de sua negação. Quando políticas sociais, ainda que limitadas, introduzem fissuras na dependência absoluta, algo se desloca. Não apenas na renda, mas na consciência. A experiência mínima de autonomia — ainda que frágil — revela que a submissão não é inevitável.

É nesse instante que o sistema reage.

O que se apresenta como indignação moral contra políticas redistributivas frequentemente encobre algo mais profundo: a crise de um modelo de dominação que se vê ameaçado não pela perda imediata de lucros, mas pela possibilidade de que os sujeitos historicamente subordinados deixem de aceitar o lugar que lhes foi destinado.

Não é o custo econômico que incomoda — é o risco político.

A possibilidade de que aqueles antes reduzidos à condição de força de trabalho passem a reivindicar não apenas melhores condições, mas o controle sobre os próprios meios de existência. Terra, produção, conhecimento, organização coletiva — eis os elementos que transformam assistência em emancipação.

E é precisamente aí que reside o ponto de ruptura.

Enquanto a cidadania permanecer dissociada das condições materiais que a sustentam, ela será promessa vazia. Enquanto o acesso aos meios de produção for restrito, a liberdade continuará sendo privilégio travestido de direito universal.

Portanto, não estamos diante de um conflito superficial entre opiniões divergentes, mas de uma disputa profunda entre projetos de sociedade. De um lado, a naturalização da desigualdade como engrenagem funcional; de outro, a afirmação de que ela é histórica — e, por isso mesmo, transformável.

A questão que se impõe, com a urgência dos tempos, não é apenas denunciar essa estrutura, mas desarticulá-la. E isso não se faz apenas no plano do discurso, mas na materialidade da vida: reorganizando o acesso à terra, democratizando os meios de produção, reconstruindo as bases da participação social.

Porque, no fim das contas, a história não é um destino dado — é um campo de luta.

E toda estrutura que se ergue sobre a negação sistemática da humanidade de muitos… cedo ou tarde… será chamada a responder por isso.

✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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