A burocracia da reforma agrária e a reprodução silenciosa do latifúndio
A burocracia da reforma agrária e a reprodução silenciosa do latifúndio
Existe uma questão ainda mais profunda e desconfortável que precisa ser enfrentada: o problema não é apenas a ausência de Trabalho Social na reforma agrária e na habitação de interesse social. O problema é que essa ausência não é neutra. Ela cumpre uma função histórica.
A engrenagem burocrática que reduz reforma agrária a cadastro, crédito, titulação e entrega de unidades habitacionais não surgiu por acaso. Ela é resultado de um longo processo histórico de domesticação institucional da questão agrária brasileira.
O Brasil jamais realizou plenamente uma ruptura estrutural com a lógica do latifúndio.
O que ocorreu, historicamente, foi uma modernização conservadora do campo.
Mudaram-se os instrumentos.
Mudaram-se os discursos.
Mudaram-se as técnicas administrativas.
Mas preservou-se, em larga medida, a estrutura de poder territorial.
Florestan Fernandes demonstrava que as elites brasileiras sempre operaram por “transformações controladas”, incorporando parcialmente demandas populares sem permitir alterações profundas nas relações de poder. A reforma agrária brasileira frequentemente caminhou dentro dessa contradição: administrar conflitos fundiários sem efetivamente democratizar o poder no campo.
E é exatamente aí que a tecnocracia ganha centralidade.
A burocratização da reforma agrária permite transformar um problema político em problema administrativo.
A luta pela terra deixa de ser enfrentamento estrutural da concentração fundiária e passa a ser gestão técnica de beneficiários.
O conflito social é neutralizado.
A radicalidade da questão agrária é absorvida pela linguagem da governança.
Tudo vira:
* cadastro;
* regularização;
* protocolo;
* monitoramento;
* índice;
* meta;
* produtividade institucional.
A terra deixa de aparecer como disputa de poder.
Passa a aparecer como ativo administrável.
Essa lógica reproduz profundamente o conservadorismo brasileiro porque mantém intacta a essência da estrutura latifundiária: a concentração do poder territorial.
Mesmo quando há distribuição parcial de terras, frequentemente não há distribuição equivalente de:
* assistência técnica contínua;
* infraestrutura;
* organização política;
* crédito adequado;
* soberania produtiva;
* acesso a mercados;
* formação crítica;
* proteção territorial;
* fortalecimento comunitário.
E sem essas dimensões, muitas comunidades permanecem estruturalmente subordinadas ao mesmo sistema econômico que historicamente as expulsou.
O latifúndio contemporâneo não se sustenta apenas pela posse da terra.
Ele se sustenta pela captura das condições de permanência na terra.
Essa é a dimensão mais sofisticada da dominação agrária atual.
O capitalismo agrário moderno já compreendeu que não precisa impedir totalmente a reforma agrária. Basta limitar sua potência política.
Pode-se até permitir assentamentos.
Pode-se até construir casas.
Pode-se até emitir títulos.
Desde que os territórios permaneçam:
* economicamente frágeis;
* politicamente desorganizados;
* dependentes institucionalmente;
* isolados tecnicamente;
* vulneráveis socialmente.
Nesse cenário, o Trabalho Social torna-se perigoso para a lógica conservadora justamente porque ele fortalece autonomia coletiva.
E autonomia coletiva ameaça relações históricas de mando territorial.
Quando comunidades se organizam criticamente, elas passam a exigir:
* políticas integradas;
* infraestrutura;
* acesso à água;
* comercialização;
* escolas;
* saúde;
* proteção ambiental;
* soberania alimentar;
* participação decisória;
* enfrentamento ao racismo fundiário;
* enfrentamento ao patriarcado rural.
Ou seja: deixam de ser meras receptoras de políticas e tornam-se sujeitos políticos.
É precisamente isso que parte da racionalidade conservadora teme.
Antonio Gramsci explicava que a hegemonia não se sustenta apenas pela força econômica, mas pela construção de consensos e formas de direção cultural. A tecnocracia agrária contemporânea exerce exatamente essa função: cria a aparência de inclusão social sem necessariamente alterar profundamente as estruturas de poder territorial.
A política pública passa então a operar como mecanismo de contenção social.
Entrega-se parcialmente para evitar transformação estrutural.
A burocracia substitui participação popular.
A governança substitui mobilização social.
O gerenciamento substitui emancipação.
E aqui emerge uma questão central para aprofundar o terceiro ensaio: a ausência de Trabalho Social não é mera falha operacional. Ela pode funcionar como mecanismo de despolitização da reforma agrária.
Porque o Trabalho Social verdadeiro produz consciência territorial e leitura crítica da realidade.
Ele revela:
* as relações históricas de exploração;
* o racismo estrutural no acesso à terra;
* a violência fundiária;
* a concentração econômica;
* a captura política dos territórios;
* a dependência produtiva;
* a desigualdade de gênero no campo.
Sem essa dimensão crítica, a política tende a permanecer superficialmente distributiva, mas estruturalmente conservadora.
Como diria Paulo Freire, toda prática educativa é política. O mesmo vale para o Trabalho Social. Sua ausência também é política.
E talvez a pergunta mais perturbadora seja justamente esta:
o que acontece quando o Estado entrega terra e moradia, mas evita deliberadamente fortalecer organização popular permanente nos territórios?
A resposta pode ser dura:
cria-se uma reforma agrária administrada para não se transformar em reforma social profunda.
A casa é construída.
O título é entregue.
O cadastro é atualizado.
Mas a estrutura histórica do poder territorial permanece respirando por baixo da política pública.
Como um velho latifúndio que aprendeu a sobreviver usando linguagem moderna, sistemas digitais, governança institucional e eficiência burocrática — enquanto continua evitando aquilo que mais teme:
povo organizado, consciente e territorialmente fortalecido.
✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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