A Patologização da Esquerda e a Saúde Mental como Campo de Disputa Ideológica
A Patologização da Esquerda e a Saúde Mental como Campo de Disputa Ideológica
Há uma operação ideológica em curso quando determinados setores políticos tentam transformar sofrimento psíquico em prova de inferioridade moral. Não se trata apenas de uma leitura apressada de pesquisas, mas de uma velha manobra conservadora: converter a dor social em defeito individual, a sensibilidade ética em fragilidade psicológica, a indignação política em sintoma clínico. É uma forma sofisticada - e ao mesmo tempo grosseira - de desqualificar quem ainda se importa.
Recentemente, um estudo publicado no Journal of Open Inquiry in the Behavioral Sciences, por Meng Hu e Emil Kirkegaard, analisou uma amostra de 978 adultos nos Estados Unidos e encontrou associações entre posicionamentos mais à esquerda, indicadores de saúde mental e modificações corporais. O próprio desenho do estudo, contudo, trabalha com correlações, não com causalidade. Portanto, qualquer tentativa de afirmar que “ser de esquerda causa transtorno mental” é uma fraude interpretativa travestida de ciência. É o velho fetiche positivista usado como cacete: pega-se uma tabela, arranca-se o contexto, e vende-se preconceito com verniz acadêmico.
O problema não está em estudar relações entre ideologia, comportamento e saúde mental. A ciência pode e deve investigar fenômenos complexos. O problema começa quando um dado parcial é instrumentalizado como arma política. Aí já não estamos mais no campo da pesquisa; estamos no campo da propaganda. E propaganda, quando se fantasia de neutralidade científica, torna-se ainda mais perigosa, porque pretende humilhar com a autoridade da estatística.
É preciso inverter a pergunta. Em vez de perguntar por que pessoas de esquerda aparecem mais associadas a sofrimento psíquico em determinados estudos, deveríamos perguntar: que tipo de sociedade produz sofrimento em quem se importa com a desigualdade, a fome, a exploração, o racismo, a violência de gênero, a precarização do trabalho e o abandono dos pobres? Uma consciência social desperta não atravessa a barbárie intacta. Quem enxerga a ferida histórica do mundo dificilmente conserva a serenidade ornamental dos indiferentes.
A Organização Mundial da Saúde define os determinantes sociais da saúde como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, atravessadas pelo acesso desigual a poder, dinheiro e recursos. Isso significa que saúde mental não pode ser compreendida apenas como assunto privado, biográfico ou cerebral. Ela é também produto da moradia, da renda, do trabalho, da humilhação social, da insegurança alimentar, da violência institucional e da falta de horizonte histórico.
O sujeito pobre não sofre apenas porque “pensa demais”. Sofre porque paga caro para existir. Sofre porque acorda cedo, ganha pouco, mora longe, come mal, dorme pouco, é cobrado demais e reconhecido de menos. Sofre porque o corpo vira instrumento de sobrevivência antes de se tornar território de dignidade. Sofre porque a vida lhe chega como boleto, fila, ameaça, transporte lotado, aluguel atrasado, patrão impaciente e promessa política vencida. A ansiedade, nesse quadro, não é uma abstração clínica: é o nome íntimo de uma economia que organiza a vida pela pressão permanente.
Nesse sentido, as relações de trabalho são decisivas. A Organização Internacional do Trabalho afirma que riscos psicossociais no trabalho - como estresse intenso, assédio, insegurança, jornadas excessivas e ambientes adoecedores - afetam a saúde mental dos trabalhadores. A OMS também reconhece que o trabalho pode proteger ou prejudicar a saúde mental, especialmente quando reproduz discriminação, desigualdade e insegurança.
Aqui aparece a dimensão de classe. A classe patronal, em sua forma histórica dominante, tende a defender uma moral da produtividade que exige do trabalhador disciplina, silêncio, gratidão e obediência. Quando o trabalhador adoece, dizem que ele é fraco. Quando protesta, dizem que é ingrato. Quando se organiza, dizem que é manipulado. Quando procura cuidado, dizem que é mimado. Quando rompe o silêncio, dizem que está fazendo “vitimismo”. Eis a maquinaria ideológica da exploração: primeiro adoece; depois culpa o adoecido.
A direita moralista costuma tratar saúde mental como frescura até precisar usá-la como acusação contra seus adversários. Não se interessa pelo cuidado, mas pela estigmatização. Não quer compreender o sofrimento; quer transformá-lo em rótulo. Não quer perguntar por que tantos adoecem; quer zombar de quem teve coragem de nomear a própria dor. É a política da crueldade performática: ri do ferido para não discutir quem produziu a ferida.
Há ainda uma diferença importante entre sofrimento reconhecido e sofrimento negado. Determinados grupos sociais, especialmente homens formados sob uma masculinidade autoritária, podem resistir mais a buscar ajuda, por vergonha, orgulho ou medo de parecerem frágeis. Estudos sobre estigma e masculinidade indicam que normas rígidas de “homem forte” dificultam a procura por cuidado em saúde mental. Assim, menor presença em estatísticas de diagnóstico pode significar, em alguns casos, não maior saúde, mas menor acesso, menor reconhecimento ou maior negação.
Essa é uma questão crucial. O sujeito que nunca se tratou não é necessariamente saudável. Pode apenas ter transformado sua dor em agressividade, cinismo, autoritarismo, compulsão por controle ou desprezo pelos vulneráveis. O sofrimento não elaborado não desaparece: ele muda de roupa. Às vezes veste farda moral. Às vezes veste terno empresarial. Às vezes veste púlpito religioso. Às vezes veste discurso patriótico. E, não raro, aparece como ódio contra mulheres, pobres, professores, artistas, estudantes, sindicalistas, negros, indígenas, população LGBTQIA+ e movimentos sociais.
A esquerda, por sua vez, não deve romantizar o sofrimento. Não há virtude automática em adoecer. A dor não é diploma revolucionário. Ninguém é mais consciente porque sofre mais. Paulo Freire nos ensinou que a conscientização não é culto à angústia, mas passagem crítica da realidade opressora para a ação transformadora. O sofrimento só ganha densidade política quando deixa de ser clausura individual e se converte em leitura crítica do mundo, organização coletiva e práxis libertadora.
Por isso, é preciso recusar dois erros: o primeiro é o erro conservador de usar saúde mental como insulto; o segundo é o erro ingênuo de achar que toda dor gera consciência. Nem todo sofrimento emancipa. Muito sofrimento embrutece. Muito sofrimento captura. Muito sofrimento empurra o sujeito para saídas reacionárias, ressentidas e autoritárias. A consciência de classe não nasce automaticamente da miséria; ela precisa ser construída pela educação política, pela experiência coletiva, pela linguagem crítica e pela luta organizada.
A questão decisiva, portanto, não é saber se a esquerda sofre mais. A questão é saber por que uma sociedade fundada na exploração precisa desqualificar justamente aqueles que denunciam sua estrutura adoecedora. Quando alguém se indigna diante da fome, dizem que é emocional. Quando denuncia o racismo, dizem que é ressentido. Quando fala de gênero, dizem que é degenerado. Quando fala de classe, dizem que é invejoso. Quando fala de saúde mental, dizem que é fraco. A ordem dominante sempre tenta converter a crítica em patologia.
Essa estratégia é antiga. Todo sistema de dominação tenta se apresentar como normalidade. O escravismo se dizia natural. O colonialismo se dizia civilizador. O patriarcado se dizia ordem familiar. O capitalismo selvagem se diz mérito. A violência policial se diz segurança. A concentração de renda se diz liberdade econômica. E quem questiona tudo isso é tratado como desajustado. A história, porém, mostra que muitas vezes os chamados “desajustados” eram justamente os que não aceitaram ajustar-se à injustiça.
Hegel escreveu que “o verdadeiro é o todo”. A frase é preciosa aqui. O dado isolado não explica a totalidade. Um índice de ansiedade não explica a sociedade. Um diagnóstico não explica a história. Uma correlação não explica a exploração. Para compreender saúde mental, é preciso olhar o todo: trabalho, classe, raça, gênero, renda, moradia, cultura, poder, reconhecimento e futuro. Sem totalidade, a estatística vira caricatura; com totalidade, ela pode virar conhecimento.
Também é necessário lembrar Kant: o ser humano deve ser tratado sempre como fim, nunca apenas como meio. A sociedade capitalista faz exatamente o contrário: transforma pessoas em meios para acumulação, corpos em ferramentas, tempo em mercadoria, sofrimento em custo administrativo e saúde em despesa. Depois, quando o sujeito adoece, pergunta cinicamente por que ele não foi mais resiliente. A resiliência virou o nome bonito da adaptação ao insuportável.
A crítica precisa ser contundente: uma sociedade que exige produtividade sem dignidade, obediência sem participação, consumo sem segurança, desempenho sem descanso e competição sem solidariedade é uma fábrica de sofrimento psíquico. E quando essa mesma sociedade acusa os críticos de serem “mentalmente frágeis”, ela apenas revela sua perversidade: quer adoecer sem ser responsabilizada; quer explorar sem ser nomeada; quer lucrar sem ser julgada.
A estigmatização da esquerda, nesse debate, cumpre uma função política: desviar a atenção das estruturas. Em vez de discutir a precarização do trabalho, discute-se o cabelo colorido. Em vez de discutir a violência econômica, discute-se piercing. Em vez de discutir a desigualdade, discute-se a suposta fragilidade emocional de quem protesta. É uma troca canalha: substitui-se a análise social por fofoca moral. É o triunfo da miudeza contra a inteligência.
Mas a resposta progressista também precisa ser eticamente superior. Não devemos responder ao estigma com outro estigma. Não devemos chamar o outro campo político de “doente” como insulto, porque isso reforça a mesma lógica que queremos combater. A crítica deve mirar a ideologia, a negação, a hipocrisia, a crueldade, o autoritarismo, a exploração e a indiferença — não a condição psíquica das pessoas. Saúde mental não é munição. É direito humano.
A OMS afirma que pessoas com condições de saúde mental frequentemente enfrentam estigma, discriminação e violações de direitos humanos. Portanto, quem usa diagnóstico como xingamento participa da produção social da exclusão. E quem ri da dor psíquica do outro talvez esteja apenas confessando a própria pobreza moral.
O que deve nos orientar é uma política do cuidado, não da humilhação. Cuidado não como caridade sentimental, mas como princípio civilizatório. Cuidado como reorganização das condições de vida. Cuidado como trabalho decente, moradia digna, renda, cultura, lazer, saúde pública, educação crítica, tempo livre, pertencimento comunitário e democracia real. Uma sociedade menos adoecedora não nascerá de coach motivacional nem de palestra empresarial sobre felicidade; nascerá da transformação concreta das relações sociais.
No fundo, a pergunta é brutal: quem é mais saudável — aquele que sofre ao ver o mundo injusto, ou aquele que precisa endurecer a alma para suportar a própria cumplicidade com a injustiça? Evidentemente, sofrimento não é prova de superioridade. Mas a indiferença também não é prova de equilíbrio. Há serenidades que são apenas anestesias. Há equilíbrios que são pactos com a barbárie. Há normalidades que deveriam nos envergonhar.
Por isso, diante da tentativa de patologizar a esquerda, respondamos com firmeza: não aceitaremos que a saúde mental seja transformada em arma de perseguição ideológica. Não aceitaremos que a dor seja convertida em chacota. Não aceitaremos que a sensibilidade social seja tratada como defeito. Se há sofrimento entre aqueles que lutam por justiça, talvez seja porque ainda não perdemos completamente a capacidade de sentir o mundo.
E sentir o mundo, numa sociedade brutalizada, é quase um ato de resistência.
A esquerda não precisa negar o sofrimento. Precisa politizá-lo sem romantizá-lo. Precisa cuidar de seus militantes, trabalhadores, educadores, mães, juventudes e lideranças comunitárias. Precisa compreender que não há revolução possível com sujeitos emocionalmente esmagados, nem emancipação verdadeira sem saúde, descanso, afeto, beleza, pão, terra, moradia e tempo para respirar.
Porque, no fim, a luta não é para provar que somos mais fortes que a dor. A luta é para construir um mundo onde a dignidade não seja exceção, onde o trabalho não seja moenda, onde a pobreza não seja destino, onde a diferença não seja crime, onde a saúde mental não seja privilégio e onde ninguém precise adoecer para que poucos possam enriquecer.
Quem se importa, sente. Quem sente, pode sofrer. Mas quem transforma esse sofrimento em consciência, organização e cuidado coletivo já começou a derrotar a barbárie.
✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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