"Pachamama", O povo Boliviano resiste ao agronegócio: A terra como campo de batalha da América Latina.
"Pachamama", O povo Boliviano resiste ao agronegócio: A terra como campo de batalha da América Latina.
Antes que uma revolta apareça nas ruas, ela costuma nascer no subsolo da história. Não explode de repente: germina. A revolta boliviana que hoje se levanta contra a Lei 1.720 e contra o avanço da mercantilização da terra não é um relâmpago isolado no céu andino; é a culminância de uma invasão silenciosa, lenta, jurídica, bancária, agrária e colonial. Uma invasão que não chega apenas com tropas, mas com contratos; não apenas com armas, mas com cadastros; não apenas com cercas, mas com decretos; não apenas com violência explícita, mas com a linguagem aparentemente neutra do crédito, da produtividade, da modernização e do desenvolvimento.
A Bolívia, marcada por uma das mais profundas tradições indígenas e comunitárias da América Latina, sempre viveu a terra não como simples mercadoria, mas como território, ancestralidade, reprodução social, memória coletiva e condição de existência. Na cosmovisão dos povos originários, a terra não é apenas chão produtivo: é Pachamama, mundo vivo, matriz da vida. Quando o capital tenta convertê-la em garantia bancária, em ativo hipotecável, em objeto de especulação e em passaporte para expansão agroindustrial, não está apenas mudando uma norma fundiária; está tentando alterar o próprio sentido civilizatório da relação entre povo, natureza e Estado.
A chamada Lei 1.720, aprovada em abril de 2026 e posteriormente revogada diante da pressão social, permitia a reclassificação de pequenas propriedades agrárias em médias propriedades, abrindo caminho para que a terra fosse usada como garantia de crédito e perdesse proteções tradicionais, como a inembargabilidade. Para seus defensores, tratava-se de ampliar acesso ao financiamento; para organizações indígenas, camponesas e rurais, tratava-se de uma porta aberta à mercantilização da terra, à pressão bancária, à especulação fundiária e ao avanço indireto dos grandes interesses agroindustriais. A Assembleia boliviana anulou a lei após semanas de marchas e bloqueios, em tentativa de pacificar o país, mas a mobilização continuou porque a ferida era mais profunda que a norma revogada.
Essa é a astúcia histórica do capital agrário: raramente ele diz “vou tomar a terra”. Ele diz “vou modernizar”. Diz “vou financiar”. Diz “vou integrar ao mercado”. Diz “vou dar segurança jurídica”. Mas, por trás dessa retórica limpa como mármore de banco, esconde-se a velha operação colonial: transformar bens comuns em mercadoria, territórios coletivos em ativos individuais, comunidades em devedoras, pequenos produtores em reféns do crédito, e povos inteiros em entraves ao “progresso”. É a acumulação por despossessão vestida de política pública. É o latifúndio aprendendo a falar juridiquês.
A revolta boliviana nasce precisamente desse ponto de fratura. O povo não se levantou apenas contra uma lei; levantou-se contra uma trajetória. Levantou-se contra a sensação histórica de que, mais uma vez, em nome da economia, querem retirar dos pobres aquilo que lhes resta: o chão. Levantou-se contra a tentativa de transformar a terra comunitária em mercadoria vulnerável à dívida. Levantou-se porque sabe, por experiência secular, que quando o banco entra pela porta da pequena propriedade, muitas vezes a comunidade sai pela janela da história.
A Bolívia já carrega, há décadas, a expansão da fronteira agroindustrial, especialmente em Santa Cruz, região associada à soja, à pecuária, à agricultura mecanizada e ao desmatamento. Estudos sobre a dinâmica territorial boliviana apontam a expansão da agricultura mecanizada sobre áreas florestais férteis no leste e norte de Santa Cruz, enquanto relatórios recentes associam o avanço da soja e da pecuária a altos custos sociais e ambientais.
A soja, em particular, é descrita por estudos ambientais como um dos vetores significativos de mudança de uso da terra na Bolívia e no Paraguai, conectando desmatamento, cadeias globais de commodities e pressão sobre territórios tradicionais.
Portanto, a rebelião não é irracionalidade popular. É consciência histórica. É leitura política do território. É o povo dizendo: “sabemos onde isso termina”. Termina na concentração fundiária, no endividamento, na expulsão, no desmatamento, no veneno, na exportação da riqueza e na domesticação do Estado pelos interesses privados. Termina na velha América Latina de sempre: muita terra para poucos, muita dívida para muitos, muita promessa para o povo e muito subsídio para os de cima.
A história da América Latina poderia ser lida como uma longa disputa em torno da terra. Não da terra abstrata, desenhada em mapas frios de gabinete, mas da terra viva: terra de plantar, morar, enterrar os mortos, criar filhos, cultuar ancestrais, produzir alimento e constituir comunidade. Antes de ser mercadoria, a terra foi mundo. Antes de ser matrícula, foi memória. Antes de ser hipoteca, foi chão.
O agronegócio moderno gosta de vestir terno tecnológico, falar em produtividade, mercado, eficiência, segurança alimentar e inovação. Mas, por baixo do verniz de drone, satélite e planilha Excel — esse altar onde o capital reza sua missa de domingo — permanece uma estrutura antiga: concentração fundiária, monocultura, dependência externa, subordinação do Estado e violência contra quem atrapalha a marcha da mercadoria.
No Brasil, conhecemos bem essa liturgia. A grande propriedade nasceu com a colonização, foi batizada pelo latifúndio, amadureceu com a escravidão, reciclou-se na República oligárquica, modernizou-se com crédito público, mecanização seletiva e bancada parlamentar, e hoje se apresenta como “agro é tech”. Tech, sim; mas frequentemente tech para o lucro privado e arcaico para o trabalhador. O trator é moderno; a relação social, muitas vezes, cheira a senzala reformada.
É preciso, contudo, não cair numa caricatura grosseira. Há produtores, técnicos, agricultores e cadeias produtivas diversas dentro do chamado “agro”. Mas o agronegócio como bloco histórico de poder- para usar uma chave gramsciana - não é simplesmente produção agrícola. É uma coalizão entre terra, finança, mídia, parlamento, exportação, veneno, logística, crédito e violência simbólica. É uma hegemonia que tenta convencer o povo de que o país depende dela, quando muitas vezes é ela que depende do país: depende de estrada pública, crédito público, perdão fiscal, seguro rural, pesquisa estatal, infraestrutura, anistia ambiental e tolerância política.
A Bolívia, nesse momento, aparece como espelho andino da tragédia latino-americana. A atual convulsão social começou com força em torno de uma lei agrária, a Lei 1.720, que, segundo seus defensores, buscaria reativar a economia e ampliar o crédito; segundo movimentos indígenas e campesinos, poderia abrir caminho para especulação, hipotecas e ameaça às terras coletivas. A revolta depois se ampliou: inflação, escassez de combustível, arrocho, crise econômica, mineiros, professores, transportadores, camponeses. Mas o estopim agrário é revelador: quando a terra treme, o Estado inteiro balança.
Santa Cruz, região boliviana fortemente vinculada à soja, à pecuária e à exportação, encarna essa fronteira. Ali, o agronegócio avança como se floresta fosse obstáculo, povo tradicional fosse atraso e biodiversidade fosse mato inútil. O mesmo roteiro se repete do Cerrado brasileiro ao Chaco, da Amazônia boliviana ao Matopiba: primeiro chega a promessa de progresso; depois, o crédito; depois, a estrada; depois, a cerca; depois, o veneno; por fim, a expulsão silenciosa dos pobres. Quando a comunidade percebe, a paisagem já foi convertida em planilha.
Essa é a dialética brutal do agronegócio latino-americano: ele produz riqueza, mas frequentemente a concentra; produz alimento, mas subordina a dieta nacional ao mercado externo; produz divisas, mas cobra subsídios; fala em liberdade econômica, mas vive agarrado ao Estado como bezerro em teta pública. Critica política social para pobre, mas não dispensa política pública para rico. É liberal na fala e estatista no caixa. Convenhamos: até Maquiavel acharia essa astúcia um pouco abusada.
A crítica, portanto, não deve ser moralista, mas estrutural. O problema não está apenas no “fazendeiro mau” ou no “empresário ganancioso”, embora esses existam com fartura tropical. O problema está no regime social que transforma a terra em plataforma de acumulação, o alimento em derivativo da exportação e o trabalhador em peça descartável. Como diria Hegel, “a verdade é o todo”; e o todo, aqui, mostra que a questão agrária nunca foi apenas agrícola. Ela é política, jurídica, ambiental, fiscal, cultural e civilizatória.
Quando movimentos indígenas e campesinos bolivianos resistem a uma lei que percebem como ameaça territorial, eles não estão apenas discutindo crédito rural. Estão disputando o sentido da vida social. Estão dizendo que terra coletiva não pode ser reduzida a garantia bancária. Estão afirmando que território não é só propriedade: é existência. É o que Paulo Freire chamaria de leitura crítica do mundo antes da leitura da palavra. O povo lê o avanço do capital no próprio chão rachado, na água contaminada, na expulsão da comunidade, no preço do alimento, na violência da polícia e no silêncio interessado dos poderosos.
No Brasil, essa lição deveria arder como brasa. O agronegócio que se apresenta como salvador da pátria muitas vezes atua como senhor feudal de GPS na mão. Exporta soja, carne, milho, celulose; importa dependência, desigualdade e degradação. Diz alimentar o mundo, mas o povo brasileiro ainda enfrenta insegurança alimentar. Diz gerar riqueza, mas grande parte da riqueza escorre por cadeias financeiras, tradings internacionais e concentração patrimonial. Diz defender a família, mas frequentemente combate direitos trabalhistas, fiscalização ambiental, reforma agrária e demarcação de terras.
A crise boliviana mostra que a América Latina continua diante da mesma encruzilhada histórica: ou a terra será fundamento de soberania popular, alimento, comunidade e vida digna; ou será apenas ativo financeiro de uma minoria que transforma nação em fazenda e povo em mão de obra excedente.
O agronegócio, quando se converte em poder absoluto, não é apenas um setor econômico. É uma pedagogia da dominação. Ensina que a floresta vale menos em pé, que o trabalhador vale menos organizado, que o indígena vale menos em seu território, que o camponês vale menos sem escritura bancável, que o Estado vale mais quando serve ao capital e menos quando serve ao povo.
Contra isso, a resposta não pode ser nostalgia romântica nem tecnofobia. A resposta deve ser outra racionalidade produtiva: reforma agrária popular, agroecologia, agricultura familiar fortalecida, soberania alimentar, crédito público condicionado a direitos sociais e ambientais, rastreabilidade, punição efetiva ao trabalho escravo, tributação justa, proteção dos territórios tradicionais e democratização radical da política agrária.
Porque a terra não é muda. Ela fala. Fala na revolta boliviana, nos conflitos do Cerrado, nos rios envenenados, nos povos expulsos, nos trabalhadores resgatados, nas comunidades quilombolas que resistem, nos fundos e fechos de pasto que preservam vida onde o capital só enxerga hectare.
E quando a terra fala, companheiro, é melhor escutar. Porque antes que a história bata à porta com delicadeza, ela costuma chegar de botina.
✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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