A IRRACIONALIDADE PROGRAMADA DA SELEÇÃO NACIONAL: INDICADORES SOCIAIS, DESPERDÍCIO INSTITUCIONAL E A FALSA UNIVERSALIDADE DA POLÍTICA HABITACIONAL


A IRRACIONALIDADE PROGRAMADA DA SELEÇÃO NACIONAL: INDICADORES SOCIAIS, DESPERDÍCIO INSTITUCIONAL E A FALSA UNIVERSALIDADE DA POLÍTICA HABITACIONAL

Há uma contradição estrutural no modo como determinadas políticas públicas habitacionais vêm sendo organizadas no Brasil: o Estado define critérios sociais e indicadores territoriais capazes de revelar, antes mesmo do lançamento de qualquer edital, onde estão concentradas as maiores vulnerabilidades; contudo, em vez de utilizar esse mapa prévio para direcionar a ação pública de forma racional, econômica e estratégica, lança seleções amplas para todo o território nacional, mobilizando entidades, técnicos, movimentos sociais, Caixa Econômica Federal, Ministério das Cidades, municípios e comunidades em uma disputa excessivamente custosa, desgastante e, em muitos casos, desnecessária.

A questão central é simples, mas profundamente incômoda: se os próprios critérios sociais já indicam onde a política deve incidir, por que abrir uma seleção nacional como se o Estado ainda não soubesse onde estão as demandas?

Quando uma política pública utiliza como parâmetros o déficit habitacional, o Índice de Desenvolvimento Humano, a renda familiar, a precariedade fundiária, a inadequação habitacional, a presença de famílias em situação de vulnerabilidade, a quantidade de agricultores familiares sem moradia adequada, a presença de comunidades quilombolas, povos indígenas, assentamentos da reforma agrária, comunidades tradicionais, mulheres chefes de família, população negra e parda, famílias inscritas no CadÚnico, beneficiários de programas sociais, ausência de infraestrutura urbana ou rural, distância de equipamentos públicos, fragilidade do acesso à água, saneamento, energia, transporte, saúde e educação, ela não está apenas criando critérios administrativos. Ela está construindo uma cartografia social da desigualdade.

Esses indicadores não são neutros. Eles apontam territórios. Eles revelam municípios. Eles tornam visível onde a moradia é mais precária, onde a pobreza é mais profunda, onde a exclusão histórica se sedimentou, onde o direito social não atravessou a porteira, a estrada de chão, o quilombo, a periferia, o assentamento, a comunidade ribeirinha, o fundo de pasto, a ocupação urbana e a pequena propriedade rural. Portanto, se os indicadores já desenham o território da necessidade, a seleção nacional ampla passa a carregar uma contradição de origem: ela simula incerteza onde já existe diagnóstico.

Não se trata de defender a eliminação da participação social, nem de retirar das entidades populares o direito de disputar políticas públicas. Trata-se de perguntar se o desenho atual do processo respeita os princípios da economicidade, do planejamento estratégico, da eficiência administrativa, da racionalidade operacional e da justiça territorial. Porque uma política pública séria não deveria produzir uma mobilização gigantesca quando sua própria metodologia já permite identificar, com razoável precisão, os territórios prioritários.

O problema, portanto, não está apenas no resultado final da seleção. Está no próprio caminho escolhido para chegar até ele.

Quando o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal estruturam um processo seletivo aberto em escala nacional, exigindo documentação, mobilização, inserção de dados, organização institucional, produção de propostas, articulação territorial, comprovações, declarações, atas, levantamentos, cadastros e múltiplas etapas de validação, criam uma enorme engrenagem de trabalho social, técnico e burocrático. Essa engrenagem consome tempo, energia, dinheiro, deslocamentos, reuniões, assessorias, horas de trabalho, expectativas familiares e capital político das entidades. Ao final, se a capacidade de atendimento é pequena e os critérios já apontavam previamente os territórios de maior vulnerabilidade, torna-se inevitável reconhecer que houve desperdício institucional.

Desperdício de tempo das entidades.

Desperdício de trabalho dos responsáveis técnicos.

Desperdício de energia das famílias mobilizadas.

Desperdício operacional da Caixa Econômica Federal.

Desperdício administrativo do Ministério das Cidades.

Desperdício político dos movimentos sociais.

Desperdício simbólico da esperança popular.

E o desperdício mais grave não é financeiro. É humano.

Porque cada associação que se mobiliza, cada sindicato que reúne famílias, cada cooperativa que organiza documentos, cada comunidade quilombola que acredita, cada povo indígena que aguarda, cada agricultor familiar que entrega seus dados, cada técnico social que trabalha noites e madrugadas para ajustar sistema, corrigir anexos e compreender mudanças sucessivas de orientação, tudo isso forma uma economia invisível do esforço popular. Essa economia não aparece nas planilhas oficiais, mas sustenta o processo por baixo. É o povo financiando, com sua própria esperança, a precariedade do planejamento estatal.

A seleção nacional ampla, nesses termos, converte-se em uma espécie de universalidade performática. Formalmente, todos podem participar. Materialmente, poucos terão chance concreta de atendimento. O Estado abre a porta simbólica para o Brasil inteiro, mas mantém estreito o corredor real da entrega. O povo entra com expectativa; a política responde com escassez. O direito aparece como promessa universal, mas funciona como exceção administrada.

Essa forma de organizar a política pública produz um paradoxo. Quanto mais refinados são os critérios sociais, menos justificável se torna a abertura indistinta da seleção. Se os critérios são frágeis, a seleção ampla pode parecer necessária para localizar a demanda. Mas se os critérios são robustos, se cruzam déficit habitacional, vulnerabilidade socioeconômica, raça, gênero, ruralidade, presença de povos e comunidades tradicionais, agricultura familiar, precariedade territorial e baixa capacidade de acesso a direitos, então o Estado já possui elementos suficientes para construir um mapa prioritário. E se esse mapa já existe, a seleção deveria ser territorialmente dirigida, não nacionalmente dispersa.

A grande questão é que o Estado parece querer as duas coisas ao mesmo tempo: quer afirmar que possui critérios técnicos sofisticados, mas também quer sustentar uma convocação ampla como se não soubesse onde a desigualdade mora. Essa duplicidade revela uma falha de concepção. Ou os indicadores realmente servem para orientar a política, e então deveriam direcionar previamente a seleção para os territórios prioritários; ou servem apenas como justificativa posterior para legitimar escolhas dentro de um processo excessivamente aberto, oneroso e frustrante.

No primeiro caso, seriam instrumentos de justiça territorial.

No segundo, tornam-se ornamentos burocráticos da escassez.

É preciso dizer com clareza: a territorialização dos critérios deveria anteceder a competição nacional. Antes de abrir edital para todo o Brasil, o Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal poderiam — e deveriam — estabelecer uma matriz pública de elegibilidade territorial, definindo previamente os municípios, regiões, territórios de identidade, comunidades tradicionais, assentamentos, áreas rurais e periferias urbanas que, de acordo com os indicadores sociais, concentram maior urgência habitacional. A partir dessa matriz, a seleção seria aberta apenas para os territórios efetivamente compatíveis com os critérios de prioridade.

Isso não retiraria a transparência do processo. Ao contrário, aumentaria. A sociedade saberia por que determinados municípios foram incluídos. Saberiam quais indicadores justificaram a prioridade. Saberiam quais territórios ficaram de fora e por quais razões. Poderiam impugnar, questionar, complementar dados, apresentar diagnósticos locais, demonstrar subnotificação, reivindicar revisão da matriz. O debate passaria a ser público, técnico e territorializado, e não uma corrida nacional em que milhares entram sem saber se, desde o início, tinham alguma chance real.

A alternativa possível, portanto, não é abolir a seleção, mas racionalizá-la. O processo poderia funcionar em etapas.

Primeiro, o Ministério das Cidades, em diálogo com a Caixa Econômica Federal, IBGE, Fundação João Pinheiro, CadÚnico, INCRA, FUNAI, Fundação Cultural Palmares, órgãos estaduais, conselhos de habitação, universidades e instâncias de controle social, construiria um mapa nacional de prioridade habitacional, cruzando os principais indicadores sociais e territoriais.

Segundo, seriam definidos grupos de municípios e territórios elegíveis, com base em critérios objetivos e publicamente verificáveis: déficit habitacional absoluto e relativo; inadequação habitacional; concentração de pobreza; baixa renda; presença de população negra e parda; presença de comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais; número de agricultores familiares sem moradia adequada; assentamentos rurais; áreas de risco; precariedade fundiária; ausência de infraestrutura; baixa oferta de políticas públicas; vulnerabilidade de mulheres chefes de família; famílias com pessoas idosas, crianças, adolescentes e pessoas com deficiência; e outros elementos de gravidade social.

Terceiro, apenas dentro desses territórios previamente elegíveis seria aberta a disputa entre entidades, municípios, movimentos sociais e organizações habilitadas. A concorrência deixaria de ser dispersa e passaria a ser territorialmente coerente. Em vez de convocar o Brasil inteiro para uma corrida desigual, o Estado convocaria os territórios onde a política tem fundamento objetivo para incidir.

Quarto, haveria uma reserva específica para situações subnotificadas ou emergenciais, permitindo que territórios invisibilizados pelos indicadores oficiais apresentassem prova social, diagnóstico comunitário, parecer técnico, manifestação de conselhos ou documentos de entidades reconhecidas. Isso impediria que a política se tornasse prisioneira dos próprios dados, porque há territórios onde a desigualdade é tão profunda que nem mesmo o indicador conseguiu chegar.

Essa proposta permitiria corrigir uma distorção grave: a confusão entre acesso democrático e convocação indiscriminada. Nem toda abertura ampla é democrática. Às vezes, a abertura ampla apenas distribui ilusão em larga escala. Democrático não é chamar todos para disputar migalhas. Democrático é dizer com transparência onde está a prioridade, por que ela foi definida, como será atendida e quais serão os próximos ciclos para os territórios não contemplados.

A política pública precisa abandonar a estética da convocação total e assumir a ética do planejamento responsável. Chamar todos quando se sabe que poucos serão atendidos não é inclusão; é administração simbólica da esperança. É a construção de uma arena de expectativas onde a maioria já entra derrotada, embora ainda não saiba.

Nesse ponto, a responsabilidade institucional do Ministério das Cidades e da Caixa Econômica Federal precisa ser debatida com seriedade. Não se trata de personalizar culpas, nem de reduzir uma política complexa à vontade isolada de gestores ou técnicos. Muitos trabalhadores dessas instituições também enfrentam sobrecarga, sistemas imperfeitos, pressões políticas e limitações operacionais. O problema está no desenho macroinstitucional: na forma como a política é concebida, operacionalizada, publicizada e executada.

O Ministério das Cidades é responsável pela concepção política, normativa e estratégica do programa. A Caixa Econômica Federal, por sua vez, ocupa papel central na operacionalização, análise, validação, contratação e interface técnica com entidades e propostas. Quando essas duas estruturas não organizam adequadamente a relação entre indicadores, território, capacidade de atendimento e processo seletivo, o resultado é uma política pública que conhece a desigualdade, mas não a enfrenta com a racionalidade necessária.

Não basta criar critérios. É preciso que os critérios tenham consequência prática. Não basta afirmar prioridade. É preciso que a prioridade organize a seleção desde o início. Não basta dizer que determinados grupos são vulneráveis. É preciso que essa vulnerabilidade determine o desenho do processo, e não apenas apareça como retórica em portarias e apresentações públicas.

Uma política pública verdadeiramente planejada deveria partir da seguinte pergunta: onde a desigualdade habitacional é mais grave, mais antiga, mais racializada, mais ruralizada, mais feminilizada, mais territorialmente invisível e mais historicamente negligenciada? Depois disso, deveria perguntar: quais entidades, municípios e organizações desses territórios têm condições de executar a política com controle social, transparência, capacidade técnica e vínculo comunitário? Só então a seleção faria sentido.

Hoje, muitas vezes, parece ocorrer o inverso. Primeiro abre-se a disputa. Depois coleta-se a avalanche de propostas. Depois aplica-se a hierarquização. Depois seleciona-se uma fração pequena. Depois a maioria precisa lidar com a frustração. Essa sequência é custosa, lenta, desgastante e politicamente cruel. O território é chamado a se mover antes de saber se, de fato, estava dentro do campo real de prioridade.

O resultado é a fabricação de um enorme trabalho social improdutivo. Improdutivo não porque as entidades não tenham trabalhado, mas porque trabalharam dentro de um desenho que, para muitas delas, já era praticamente inviável desde a origem. É como pedir que centenas de comunidades atravessem uma ponte sabendo que, do outro lado, só há espaço para algumas. A travessia vira espetáculo; o acesso, exceção.

No limite, a seleção nacional ampla, quando desvinculada de uma matriz territorial prévia, cria uma falsa universalidade da política pública. Ela transforma a escassez em competição. Transforma o direito em ranking. Transforma a vulnerabilidade em pontuação. Transforma a esperança em protocolo. Transforma a entidade popular em operadora gratuita de uma expectativa que o Estado não conseguirá cumprir.

A crítica aqui não é contra o planejamento. É exatamente o contrário: é uma defesa radical do planejamento. Planejamento estratégico significa definir prioridades com base em diagnóstico. Planejamento tático significa organizar os meios institucionais para alcançar essas prioridades. Planejamento operacional significa executar com coerência, eficiência, previsibilidade e racionalidade administrativa. Quando uma política possui indicadores capazes de territorializar a demanda, mas ainda assim abre uma seleção nacional indistinta, ela falha nos três níveis: estratégico, tático e operacional.

Falha estrategicamente, porque não parte de uma matriz territorial suficientemente delimitada.

Falha taticamente, porque mobiliza atores demais para uma capacidade de atendimento reduzida.

Falha operacionalmente, porque sobrecarrega sistemas, técnicos, entidades e famílias com processos que poderiam ser previamente filtrados.

E falha eticamente, porque transforma o desejo legítimo de moradia em expectativa de baixa probabilidade.

A saída possível, portanto, exige coragem institucional. O Ministério das Cidades e a Caixa Econômica Federal precisam substituir a lógica da seleção nacional generalizada por uma lógica de territorialização prévia da prioridade. Isso significaria construir editais por blocos territoriais, por faixas de vulnerabilidade, por tipologias sociais, por territórios de identidade, por comunidades tradicionais, por assentamentos, por áreas rurais específicas, por periferias urbanas com déficit comprovado e por municípios previamente elegíveis.

A política deixaria de perguntar apenas “quem se inscreveu?” e passaria a perguntar, antes disso, “onde o direito precisa chegar primeiro?”.

Essa mudança não eliminaria conflitos. Toda política pública distributiva envolve disputa. Mas tornaria a disputa mais honesta, mais racional e mais transparente. As entidades saberiam se seu território está ou não dentro da matriz prioritária daquele ciclo. Os técnicos não seriam convocados a produzir trabalho exaustivo em territórios sem viabilidade real. As famílias não seriam mobilizadas em massa para uma promessa improvável. A Caixa não receberia uma avalanche de propostas sabidamente superiores à capacidade operacional. O Ministério poderia planejar ciclos sucessivos de atendimento, com metas claras e territorialmente justificadas.

A política pública ganharia em economicidade.

Ganharia em transparência.

Ganharia em eficiência.

Ganharia em justiça territorial.

E, sobretudo, ganharia em respeito ao povo.

Porque o povo pobre não pode continuar sendo tratado como massa de mobilização para processos seletivos de baixa probabilidade. A família sem moradia não é peça de estatística. A entidade comunitária não é extensão gratuita da burocracia estatal. O responsável técnico não é bombeiro de sistema mal planejado. O movimento social não é instrumento de legitimação de escassez. A esperança popular não pode ser usada como combustível de uma máquina que anda pouco e promete muito.

A habitação popular precisa ser pensada com a seriedade de quem compreende que moradia não é um benefício secundário, mas uma condição fundante da vida digna. Sem casa, o sujeito não organiza plenamente sua existência. Sem moradia adequada, a cidadania permanece mutilada. Sem território seguro, a liberdade vira abstração. E sem planejamento honesto, a política pública vira liturgia da promessa.

Por isso, é necessário afirmar: se os critérios sociais já mostram onde a desigualdade está, o edital não deve fingir que está procurando no escuro. A política não pode acender uma lanterna sobre o Brasil inteiro quando os próprios dados já indicam onde está o incêndio. Deve ir onde a casa falta, onde a terra é insegura, onde o barro marca o caminho, onde o quilombo espera, onde o assentamento resiste, onde a agricultura familiar sustenta a vida sem moradia digna, onde a periferia cresce sem infraestrutura, onde a mulher sustenta sozinha a família, onde a população negra e parda carrega a herança material da exclusão.

O Estado precisa deixar de transformar diagnóstico em espetáculo seletivo. Diagnóstico deve produzir ação. Indicador deve produzir prioridade. Prioridade deve produzir orçamento. Orçamento deve produzir casa. Casa deve produzir dignidade.

Qualquer coisa abaixo disso é retórica administrada.

A moradia não pode continuar submetida a uma coreografia burocrática em que todos dançam, poucos entram e muitos voltam para casa sem casa. Se os indicadores sociais já desenham o mapa da urgência, então a política pública deve ter a decência de seguir esse mapa. Não para excluir silenciosamente os demais, mas para organizar ciclos transparentes, progressivos e territorialmente justificados de atendimento.

Porque pior do que negar o direito é vendê-lo como possibilidade universal quando ele já foi planejado para chegar a poucos. Pior do que a escassez é a escassez fantasiada de oportunidade. Pior do que a ausência de moradia é a esperança mobilizada sem responsabilidade pública.

No limite, o Brasil precisa escolher entre duas formas de política habitacional: uma que convoca o povo inteiro para disputar a insuficiência, e outra que assume, com coragem, planejamento e justiça territorial, onde a desigualdade exige resposta imediata. A primeira produz frustração em massa. A segunda pode começar a produzir reparação histórica.

E é por essa segunda que vale a pena lutar. aqui

✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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