O império que não controla suas próprias facções quer tutelar o Brasil


O império que não controla suas próprias facções quer tutelar o Brasil.


Nos Estados Unidos existem diversas facções criminosas conhecidas, entre elas Bloods, Crips, MS-13, 18th Street/Barrio 18, Latin Kings, Sureños, Norteños, Vice Lords, Gangster Disciples, Aryan Brotherhood, Mexican Mafia, Nuestra Familia, Texas Syndicate, Barrio Azteca, Tango Blast, Hells Angels, Bandidos, Mongols, Outlaws, Pagans e a máfia ítalo-americana.


Essas organizações atuam nas ruas, nos presídios, nas fronteiras e em redes internacionais. Embora os EUA tentem vender ao mundo a imagem de “modelo de segurança”, os próprios dados oficiais já indicaram cerca de 1,4 milhão de membros faccionados distribuídos em aproximadamente 33 mil facções criminosas no país.


A decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas não pode ser lida apenas como uma medida de segurança pública. Ela precisa ser compreendida como gesto geopolítico, jurídico e econômico. Quando uma potência estrangeira desloca o problema do crime organizado brasileiro para a categoria de terrorismo internacional, ela não está apenas nomeando um inimigo: está criando uma ferramenta de pressão sobre o Estado brasileiro, suas instituições, seus bancos, seus portos, suas empresas, suas cadeias produtivas e sua soberania.


Mas antes de aceitar a narrativa estrangeira, é necessário perguntar: de onde vieram as facções brasileiras? Elas não nasceram do nada, como monstros espontâneos brotando da terra. Elas foram gestadas dentro de uma história longa de violência institucional, cárcere brutal, desigualdade social, racismo estrutural, ausência de direitos e gestão militarizada da pobreza.


O Comando Vermelho, por exemplo, surge no contexto da ditadura militar brasileira, dentro do sistema prisional, especialmente no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Ali, presos comuns e presos políticos foram colocados no mesmo ambiente carcerário. Da convivência forçada, das condições degradantes e da repressão cotidiana, nasceu uma forma de organização interna entre presos. O que inicialmente aparecia como mecanismo de sobrevivência, proteção e solidariedade carcerária foi, com o tempo, transformando-se em estrutura criminal organizada.


O Primeiro Comando da Capital também nasce no ventre do sistema prisional. Sua criação, em São Paulo, no início dos anos 1990, está diretamente associada ao contexto de massacre, superlotação, tortura, humilhação e ausência de mediação institucional dentro das prisões. O massacre do Carandiru, em 1992, tornou-se símbolo máximo dessa lógica: o Estado não entrou ali como garantidor de direitos, mas como máquina de extermínio. No ano seguinte, o PCC surgiu como organização prisional que dizia enfrentar a opressão dentro do cárcere. Depois, evidentemente, expandiu-se para uma engrenagem criminosa muito mais ampla, violenta e lucrativa.


Portanto, explicar a origem das facções brasileiras não significa absolvê-las. Não se trata de romantizar o crime, nem de transformar criminosos em vítimas puras. Trata-se de compreender que o crime organizado brasileiro se alimentou da falência histórica do próprio Estado. Onde o Estado chegou apenas com cela, cassetete, bala, abandono e humilhação, o cárcere produziu sua própria ordem paralela. E quando essa ordem paralela encontrou os mercados ilegais, a corrupção institucional, a lavagem de dinheiro, as fronteiras vulneráveis e a miséria urbana, ela se converteu em poder econômico e territorial.


As facções brasileiras são, ao mesmo tempo, produto e parasita da desigualdade. Elas nasceram da violência institucional, mas depois passaram a reproduzir violência contra as próprias populações pobres que dizem proteger. Eis a tragédia dialética: aquilo que surge no cárcere como reação à opressão pode se transformar em nova forma de dominação sobre os vulneráveis. A facção ocupa o vazio deixado pelo Estado, mas não emancipa ninguém; apenas privatiza o medo, administra a escassez e transforma o desespero em mercado.


É justamente nesse ponto que a pretensão dos Estados Unidos se torna ainda mais problemática. Os EUA afirmam que facções brasileiras teriam atuação em 12 estados americanos. Mas se essas organizações já operam dentro do território norte-americano, isso revela também a incapacidade do próprio Estado americano de impedir sua presença. O país que convive com cerca de 33 mil facções e aproximadamente 1,4 milhão de membros faccionados agora pretende usar o crime brasileiro como justificativa para pressionar o Brasil. A contradição é gritante: quem não resolveu o subterrâneo da própria casa quer fiscalizar o porão do vizinho.


A classificação de facções brasileiras como organizações terroristas não é uma palavra neutra. “Terrorismo” é uma chave jurídica poderosa. Essa chave pode abrir caminho para sanções, bloqueios financeiros, restrições comerciais, vigilância internacional, perseguição a empresas, pressão sobre bancos, interferência em portos, fiscalização de cadeias produtivas e manipulação de setores estratégicos. O risco é que o combate legítimo ao crime organizado seja convertido em instrumento de tutela econômica sobre o Brasil.


A história do imperialismo mostra que nenhuma potência entra pela porta dizendo: “vim dominar”. Ela entra dizendo: “vim proteger”, “vim estabilizar”, “vim combater o mal”, “vim defender a democracia”, “vim combater o terrorismo”. Ontem foi o comunismo. Depois foram as armas químicas. Depois o narcotráfico. Agora pode ser o terrorismo criminal. O nome muda, mas a lógica permanece: construir uma ameaça absoluta para justificar mecanismos excepcionais de controle.


O Brasil precisa combater o PCC, o CV e qualquer organização criminosa com firmeza, inteligência e soberania. Isso exige investigação financeira, controle de fronteiras, combate à lavagem de dinheiro, enfrentamento da corrupção, reforma do sistema prisional, urbanização das periferias, políticas sociais, trabalho, educação, cultura, moradia e presença estatal qualificada. Segurança pública não se faz apenas com fuzil e presídio; faz-se também com território vivo, escola aberta, renda, pertencimento e justiça.


Mas uma coisa é o Brasil combater suas facções dentro da sua ordem constitucional. Outra coisa é aceitar que uma potência estrangeira transforme nossa crise social e criminal em pretexto para sanções econômicas, intervenção indireta e manipulação política. O problema não é cooperar internacionalmente. Cooperação é necessária. O problema é aceitar subordinação. Cooperação, sim. Tutela imperial, não.


O ponto central é este: as facções brasileiras são graves, violentas e precisam ser enfrentadas. Mas elas também são resultado histórico de um Estado que encarcerou, abandonou, massacrou e negligenciou populações inteiras. Transformar esse fenômeno em “terrorismo” sem enfrentar suas raízes sociais é trocar análise por propaganda. É apagar a história para fabricar um inimigo útil.


No fundo, o que está em disputa não é apenas o nome dado ao PCC ou ao CV. O que está em disputa é quem tem autoridade para definir o destino do Brasil: o povo brasileiro e suas instituições, ou uma potência estrangeira que, incapaz de resolver suas próprias 33 mil facções, pretende ditar a política criminal, econômica e diplomática do lado de cá.


O Brasil não pode ser ingênuo. Deve combater o crime organizado com rigor, mas sem entregar sua soberania. Deve enfrentar as facções, mas também enfrentar as condições sociais e institucionais que as produziram. Porque enquanto houver prisão desumana, periferia abandonada, juventude descartada, racismo estrutural e Estado seletivo, o crime organizado continuará recrutando onde a República fracassou.

A verdadeira segurança nacional não será construída pela submissão ao império, mas pela reconstrução radical da justiça social brasileira.



✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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