Psicopolítica, autoexploração, mimetismo social e dissociação cognitiva na fábrica contemporânea das subjetividades


Psicopolítica, autoexploração, mimetismo social e dissociação cognitiva na fábrica contemporânea das subjetividades

Há épocas em que a dominação se apresenta com botas, baionetas, grades e decretos. Há outras, mais refinadas e perversas, em que ela chega perfumada, motivacional, sorridente, vestida de liberdade, vendendo curso de alta performance e prometendo que todo fracasso é apenas falta de esforço individual. A brutalidade contemporânea não desapareceu; apenas aprendeu a falar baixo, a usar crachá, algoritmo, coaching, gamificação e discurso de oportunidade. O chicote não foi abolido: foi interiorizado. Tornou-se meta, produtividade, engajamento, ansiedade, culpa e comparação permanente.

É nesse ponto que a psicopolítica, a autoexploração do trabalho contemporâneo, o mimetismo social e a dissociação cognitiva se encontram como engrenagens de uma mesma maquinaria histórica: a produção de sujeitos que defendem, desejam e reproduzem as formas de sua própria subordinação.

A sociedade disciplinar, analisada por Michel Foucault, organizava corpos em instituições fechadas: escola, fábrica, quartel, prisão, hospital. O poder vigiava, corrigia, classificava e punia. Mas o neoliberalismo avançado não se contentou em controlar corpos; passou a governar almas, afetos, desejos, medos, aspirações e percepções. A dominação deixou de ser apenas biopolítica para tornar-se psicopolítica. Não basta administrar a vida; é preciso administrar a subjetividade. Não basta extrair força de trabalho; é preciso extrair entusiasmo, criatividade, atenção, identidade, imagem e esperança.

Byung-Chul Han percebe esse deslocamento com agudeza: o sujeito contemporâneo já não se percebe como sujeito obediente, mas como sujeito livre. Contudo, essa liberdade é a forma mais sofisticada da captura. O indivíduo acredita realizar a si mesmo enquanto se consome. Ele não é apenas explorado por um patrão externo; torna-se patrão de si, fiscal de si, carrasco de si, auditor de sua própria insuficiência. A velha exploração capitalista não desaparece; ela se reconfigura como autoexploração. O trabalhador deixa de dizer “sou explorado” e passa a dizer “preciso me superar”. O problema social vira falha pessoal. A estrutura vira psicologia. A violência vira empreendedorismo. A precarização vira flexibilidade. O abandono estatal vira autonomia.

No capitalismo clássico, a força de trabalho era comprada e subordinada à fábrica. No capitalismo de plataforma, de dívida, de dados e de performance, a vida inteira é posta para trabalhar. Dormir mal é sinal de compromisso. Estar sempre disponível é virtude. Não ter direitos é chamado de liberdade. Ter dois, três ou quatro trabalhos vira prova de resiliência. A classe trabalhadora é convocada a agradecer pela oportunidade de sobreviver. O absurdo é batizado de mérito; e o mérito, essa velha liturgia burguesa, funciona como sacramento ideológico da desigualdade.

Aqui Marx permanece incontornável. A exploração não é um desvio moral do capitalismo; é sua estrutura. O capital vive da apropriação do trabalho alheio. Porém, no estágio contemporâneo, essa apropriação opera também no plano subjetivo. Não se explora apenas o tempo de trabalho; explora-se o tempo de vida. Não se captura apenas a mão; captura-se a imaginação. Não se compra apenas energia física; captura-se atenção, desejo, linguagem, autoestima e reconhecimento. O trabalhador não vende apenas sua força: vende sua presença, sua imagem, sua disponibilidade, sua saúde mental e sua promessa de continuar sorrindo mesmo exausto.

É aqui que o mimetismo social adquire papel decisivo. A classe trabalhadora, sobretudo em suas frações ascendentes ou aspiracionais, é levada a imitar a burguesia não porque efetivamente participa do poder burguês, mas porque deseja participar de seus signos. Consome os símbolos do dominador, repete sua linguagem, admira sua crueldade, reproduz seu desprezo pelos pobres, interioriza seu moralismo seletivo e, muitas vezes, passa a odiar a própria origem. É uma colonização estética, política, moral e afetiva. O sujeito explorado deseja parecer com quem o explora. E, nesse teatro trágico, a máscara da burguesia pesa mais que o rosto do trabalhador.

René Girard ajuda a compreender que o desejo não nasce isolado no indivíduo. Desejamos muitas vezes aquilo que aprendemos a desejar por mediação social. O outro, transformado em modelo, orienta nosso desejo. Na sociedade capitalista, esse modelo é fabricado pela publicidade, pelas redes sociais, pelas celebridades empresariais, pelos influenciadores da ostentação, pelo empreendedorismo de palco, pela teologia vulgar do sucesso e pela pedagogia cotidiana da comparação. O trabalhador não deseja apenas melhorar de vida; deseja ser reconhecido pelos códigos simbólicos da classe dominante. Quer o objeto, mas quer sobretudo o olhar social que acompanha o objeto. Quer a casa, o carro, o celular, a roupa, a viagem, mas quer também a chancela: “eu venci”.

Todavia, esse “eu venci” é frequentemente a forma subjetiva do “nós fomos derrotados”. Pois, quando a ascensão individual substitui a emancipação coletiva, o sucesso de um passa a justificar o abandono de muitos. A exceção vira prova contra a regra. O indivíduo que conseguiu escapar parcialmente da miséria é usado como arma contra os que continuam presos nela. Nasce, então, uma subjetividade mimética e punitiva: o explorado que subiu um degrau passa a vigiar com rancor quem ainda está no chão. O oprimido, quando capturado pela gramática do opressor, aprende a chamar solidariedade de fraqueza, direito de privilégio, pobreza de preguiça e revolta de inveja.

Paulo Freire compreendeu isso com profundidade radical: a opressão não opera apenas por fora; ela pode hospedar-se dentro do oprimido. A libertação, portanto, não é simples troca de posição social, mas descolonização da consciência. Uma pedagogia da práxis libertadora precisa romper com a consciência ingênua, com a adaptação servil e com a interiorização fatalista do mundo. Não basta dar instrumentos ao sujeito para competir no mercado; é preciso criar condições para que ele compreenda o mercado como construção histórica, campo de luta e aparelho de produção de desigualdades. Sem consciência crítica, a mobilidade individual pode virar apenas decoração nova na velha casa da servidão.

A dissociação cognitiva, no sentido crítico que aqui podemos desenvolver, não é mero fenômeno psicológico individual. Ela é uma tecnologia social da dominação. Leon Festinger falou da dissonância cognitiva como tensão entre crenças, atitudes e comportamentos contraditórios. Mas, em chave histórico-crítica, podemos ampliar essa noção: a dissociação cognitiva social ocorre quando o sujeito vive uma experiência concreta de exploração, humilhação ou precariedade, mas interpreta essa experiência com as categorias ideológicas da classe dominante. Ele sente a dor da estrutura, mas pensa com a cabeça do sistema. Sofre como trabalhador, mas raciocina como pequeno burguês imaginário. Apanha da realidade e agradece à ideologia.

Essa dissociação não é acidental. Ela é produzida por aparelhos ideológicos, como ensinou Althusser; pela hegemonia cultural, como demonstrou Gramsci; pela violência simbólica, como analisou Bourdieu; pela indústria cultural, como denunciaram Adorno e Horkheimer; pela sociedade do espetáculo, como formulou Guy Debord; pela racionalidade neoliberal, como examinam Dardot e Laval; pela captura algorítmica da atenção, como denunciam os estudos contemporâneos do capitalismo de vigilância. O sujeito não nasce espontaneamente meritocrático, punitivista, competitivo e hostil à solidariedade. Ele é formado, deformado, treinado, seduzido e recompensado para sê-lo.

A hegemonia, em Gramsci, não é apenas domínio pela força; é direção moral e intelectual da sociedade. A classe dominante vence de modo mais profundo quando seus valores passam a parecer senso comum. E o senso comum é o território mais perigoso da política, porque se apresenta como evidência natural. “Sempre foi assim.” “Quem quer consegue.” “Direitos demais atrapalham.” “Pobre não sabe votar.” “Bandido bom é bandido morto.” “Empregado tem que agradecer.” “Patrão gera emprego.” Essas frases não são inocentes; são pequenas cápsulas ideológicas. São comprimidos cotidianos de submissão. Têm aparência de opinião, mas funcionam como dispositivos de conservação da ordem.

Bourdieu acrescentaria que a dominação simbólica é tanto mais eficaz quanto menos aparece como dominação. Ela se inscreve nos gostos, nos gestos, nos modos de falar, nos julgamentos, nos sonhos e nas vergonhas. A classe trabalhadora não é apenas economicamente explorada; é simbolicamente rebaixada. Aprende a desconfiar de sua fala, de seu território, de sua cultura, de seu corpo, de seu cheiro, de sua escola, de sua moradia, de seus modos de existir. E, quando tenta ascender, muitas vezes não busca apenas justiça social; busca afastar-se dos sinais da pobreza, como se a pobreza fosse defeito ontológico e não produção histórica.

Essa é uma das formas mais cruéis do mimetismo burguês: o sujeito não deseja apenas bens; deseja purificar-se da marca social da classe. Quer apagar o bairro, a origem, o sotaque, a solidariedade comunitária, a memória da luta. A ascensão, quando não politizada, pode converter-se em amnésia. E toda amnésia social é uma pequena vitória da classe dominante.

O neoliberalismo, porém, não se limita a fabricar consumidores miméticos. Ele fabrica juízes morais de si e dos outros. Wendy Brown mostra que a racionalidade neoliberal expande a lógica econômica para todas as dimensões da vida. Tudo vira investimento, desempenho, capital humano, cálculo de retorno. A educação deixa de ser formação humana e passa a ser empregabilidade. A saúde vira produtividade. A amizade vira networking. A espiritualidade vira técnica de equilíbrio para continuar suportando o insuportável. O lazer vira conteúdo. A dor vira narrativa de superação. A vida vira currículo.

Nesse mundo, a autoexploração ganha um verniz quase religioso. O sujeito deve crer em si, investir em si, vender-se melhor, acordar mais cedo, dormir menos, reclamar menos, produzir mais. E, se cair, a culpa é dele. O sistema lava as mãos com sabonete meritocrático. O capital sequestra a estrutura e devolve a culpa ao indivíduo. É uma engenharia moral perfeita: privatiza-se o lucro, socializa-se o risco e individualiza-se o fracasso.

Mark Fisher chamou esse ambiente de realismo capitalista: a sensação de que não há alternativa possível. A dominação torna-se horizonte. Não se imagina outro mundo; imagina-se apenas uma vaga melhor dentro deste. Não se questiona o labirinto; procuram-se dicas para correr mais rápido dentro dele. A política é substituída por gestão da sobrevivência. A utopia é ridicularizada como ingenuidade. A revolta é patologizada. A crítica é tratada como ressentimento. E assim o sistema protege a si mesmo não apenas com polícia, tribunais e bancos, mas com ironias, memes, diagnósticos morais e conselhos motivacionais.

A psicopolítica, nesse sentido, é também uma política da exaustão. O sujeito cansado tem menos energia para organizar-se coletivamente. O trabalhador endividado tem menos tempo para pensar historicamente. O indivíduo ansioso busca soluções imediatas, não mediações estruturais. A precarização, portanto, não é apenas econômica; é cognitiva, afetiva e política. Ela impede a elaboração crítica da própria condição. Quem luta para pagar o gás, o aluguel, o remédio, a comida e a internet dificilmente encontra serenidade para formular uma teoria da totalidade. O capital sabe disso. A fome também é método. A dívida também é coleira. A urgência também é censura.

A isso se soma a dimensão punitiva do Estado. Loïc Wacquant, ao analisar o Estado penal neoliberal, mostra como o encolhimento dos direitos sociais costuma vir acompanhado do crescimento dos mecanismos de repressão sobre os pobres. O Estado reduz proteção e amplia punição. Retira políticas públicas e oferece polícia. Nega moradia, saúde, trabalho digno e educação de qualidade; depois criminaliza os efeitos previsíveis dessa negação. A classe trabalhadora integrada é explorada pelo emprego precarizado; a população excedente é administrada pela repressão. A fábrica, a plataforma e a prisão são partes de uma mesma arquitetura de controle.

Frantz Fanon permite ampliar essa análise para a subjetividade colonizada. O colonizado pode interiorizar o olhar do colonizador, desejar sua língua, sua estética, seu reconhecimento, sua posição. No Brasil, essa dinâmica assume contornos raciais, territoriais e de classe profundamente violentos. O mimetismo social não é apenas burguês; é também embranquecedor, elitizante, antipopular e antipobre. O sujeito é estimulado a negar suas pertenças para aproximar-se do padrão dominante. A colonialidade não termina quando acaba a administração colonial formal; ela permanece nas hierarquias de valor, nos padrões de beleza, nos mapas urbanos, no acesso à justiça, na linguagem da mídia e no destino social reservado aos corpos.

Achille Mbembe, ao discutir necropolítica, ajuda a compreender que a gestão da vida também passa pela administração da morte, do abandono e da descartabilidade. Nem todos são convocados igualmente à performance neoliberal. Alguns são seduzidos pela promessa de empreendedorismo; outros são empurrados à condição de ameaça, sobra ou alvo. O mesmo sistema que diz “seja dono de si” para alguns diz “desapareça” para outros. A psicopolítica e a necropolítica não se excluem; elas se articulam. Para uns, a dominação opera pela positividade da performance; para outros, pela negatividade do descarte.

Nesse ponto, a crítica precisa ser totalizante. Não se trata de escolher entre economia, cultura, subjetividade, política ou moral. O capitalismo contemporâneo opera transversalmente. Ele explora o trabalho, coloniza o desejo, reorganiza a linguagem, captura a atenção, precariza os vínculos, converte direitos em mercadorias, transforma sofrimento em culpa individual e fabrica inimigos internos para ocultar seus próprios mecanismos de produção da desigualdade. Sua genialidade perversa está em fazer com que os dominados disputem entre si os restos da mesa, enquanto os donos da mesa discursam sobre mérito.

Por isso, o conceito de dissociação cognitiva social é tão fértil. Ele permite nomear o abismo entre condição objetiva e identificação subjetiva. Permite compreender por que trabalhadores precarizados defendem retirada de direitos trabalhistas; por que pobres atacam políticas sociais; por que vítimas da desigualdade aderem ao discurso da elite; por que setores explorados reproduzem racismo, misoginia, elitismo, punitivismo e desprezo pelos mais vulneráveis; por que a juventude periférica é seduzida por símbolos de consumo que frequentemente a endividam, expõem e capturam; por que a classe média ascendente, ansiosa por distinção, pode tornar-se tropa ideológica da classe dominante.

Essa dissociação não deve ser tratada com arrogância intelectual. Não se trata de ridicularizar o povo, como fazem certas elites acadêmicas higienizadas, que analisam a miséria com luva branca e café caro. Trata-se de compreender que a consciência é campo de disputa. A ideologia dominante não é uma opinião qualquer; é uma força material quando organiza práticas, afetos, instituições e expectativas. Como Marx e Engels formularam em A ideologia alemã, as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. A tarefa crítica é revelar o processo pelo qual essas ideias descem do palácio, atravessam a televisão, o púlpito, a empresa, a escola, o algoritmo, o grupo de WhatsApp, a mesa de bar, a família e chegam à boca do explorado como se fossem pensamento próprio.

A indústria cultural, analisada por Adorno e Horkheimer, já havia percebido a padronização das consciências sob aparência de entretenimento. Hoje, essa indústria tornou-se personalizada, interativa e algorítmica. O espetáculo não está apenas na tela; está no bolso, na palma da mão, no relógio, na notificação, no impulso de checar, postar, comparar, reagir. Debord viu que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Na era digital, essa relação social torna-se permanente. O sujeito não apenas consome espetáculo; ele se torna espetáculo de si. Produz sua própria vitrine, administra sua imagem, mede sua relevância, compara sua vida editada com a vida editada dos outros e chama essa prisão luminosa de conexão.

Maurizio Lazzarato, ao discutir o homem endividado, ajuda a fechar outra peça do quebra-cabeça. A dívida não é apenas relação econômica; é relação moral. O endividado sente culpa, promete comportamento futuro, disciplina seus desejos, aceita condições precárias, teme perder reputação. A dívida governa o tempo. Ela antecipa o futuro e o captura. O trabalhador endividado é menos livre não apenas porque deve dinheiro, mas porque sua imaginação fica hipotecada. O amanhã já nasce comprometido.

Nessa conjuntura, a crítica social precisa deixar de ser apenas denúncia e tornar-se pedagogia de desocultamento. É preciso rasgar o véu da naturalização. A naturalização diz: “isso é normal”. A normalização repete: “todos vivem assim”. A legitimação acrescenta: “é justo que seja assim”. A consolidação finaliza: “não há alternativa”. Essas quatro operações formam a escada pela qual a violência sobe ao trono do senso comum. Primeiro, a exploração é apresentada como fato. Depois, como costume. Em seguida, como mérito. Por fim, como destino.

Contra isso, a práxis libertadora precisa reabrir a história. Hegel ensinou que a realidade é processo, conflito, mediação, negatividade. Marx virou Hegel do avesso e mostrou que a história não caminha pela ideia abstrata, mas pela luta concreta entre classes, pela produção material da vida, pela contradição entre capital e trabalho. Gramsci demonstrou que nenhuma transformação duradoura ocorre sem disputa cultural e organização coletiva. Freire mostrou que a consciência crítica nasce no diálogo com o mundo vivido, não na imposição vertical de verdades. Fanon alertou que não há libertação sem descolonização radical do ser. Bourdieu revelou que a dominação se aloja no corpo e no gosto. Foucault mostrou que o poder produz sujeitos. Han demonstrou que, no neoliberalismo, o sujeito acredita ser livre enquanto se explora. E nós, diante do Brasil concreto, precisamos dizer: a subjetividade tornou-se campo de batalha.

O trabalhador contemporâneo não é apenas explorado; é convocado a amar a exploração. Não é apenas dominado; é treinado para chamar dominação de oportunidade. Não é apenas precarizado; é estimulado a postar sua precariedade como prova de coragem. Não é apenas cansado; é culpabilizado por não transformar o cansaço em produtividade. Não é apenas pobre; é responsabilizado por não performar riqueza. Não é apenas excluído; é induzido a desejar os símbolos da própria exclusão.

Eis a tragédia: a jaula contemporânea tem espelho. O sujeito olha para ela e pensa ver um projeto de vida. A corrente tem nome bonito: autonomia. O cárcere tem decoração moderna: coworking. O capataz tem voz interna: disciplina. A servidão tem slogan: seja sua melhor versão.

Mas a crítica existe para profanar os altares da mentira. Existe para dizer que não há liberdade real onde a sobrevivência exige submissão permanente. Não há mérito puro onde as largadas são historicamente desiguais. Não há empreendedorismo emancipador onde a necessidade é vendida como escolha. Não há saúde mental possível em uma sociedade que transforma vidas em máquinas de entrega, competição e comparação. Não há democracia substantiva onde a classe trabalhadora é ensinada a odiar a si mesma e a imitar os gestos simbólicos de seus exploradores.

A tarefa, portanto, é construir uma pedagogia política contra a autoexploração, uma crítica cultural contra o mimetismo burguês, uma análise psicossocial contra a dissociação cognitiva e uma práxis coletiva contra a psicopolítica neoliberal. Isso significa disputar linguagem, desejo, memória, território, trabalho, educação, cultura e organização popular. Significa devolver historicidade ao sofrimento. Significa mostrar que aquilo que aparece como fracasso individual é, muitas vezes, produto social; que aquilo que aparece como escolha livre é frequentemente coerção disfarçada; que aquilo que aparece como sonho de consumo pode ser colonização do desejo; que aquilo que aparece como opinião própria pode ser ventriloquia da classe dominante.

No limite, a emancipação começa quando o sujeito explorado deixa de perguntar apenas “como posso vencer sozinho?” e passa a perguntar “por que tantos precisam perder para que poucos pareçam vencedores?”. Essa pergunta é perigosa. Por isso mesmo é necessária. Ela rompe a hipnose meritocrática, desorganiza o teatro da culpa, desmascara o mimetismo e devolve à classe trabalhadora aquilo que o capital tenta sequestrar todos os dias: a consciência de que a história não acabou, a realidade não é destino e a liberdade não pode ser confundida com o direito de escolher a própria forma de exaustão.

A psicopolítica neoliberal quer sujeitos produtivos, cansados, competitivos, endividados, miméticos e culpados. A práxis libertadora quer sujeitos históricos, críticos, solidários, organizados e capazes de transformar a dor em consciência, a consciência em luta e a luta em mundo novo.

Porque a dominação mais perigosa é aquela que aprende a morar dentro de nós. E a libertação mais profunda é aquela que, ao expulsá-la, transforma não apenas o pensamento, mas também a vida, o trabalho, o desejo e a própria arquitetura do possível.

A psicopolítica neoliberal não apenas explora o trabalhador: ela o ensina a desejar a exploração, imitá-la como virtude e justificá-la como mérito.

✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

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