A relação das hipóteses com o método crítico dialético.

Hipóteses e método crítico dialético Davi Barbosa


Teste de hipóteses e método crítico-dialético: o problema não está na estatística, mas no lugar que ela ocupa na produção do conhecimento

Entre variáveis, mediações e totalidade: até onde um teste estatístico pode explicar uma relação social?

Uma pergunta aparentemente simples pode esconder um problema epistemológico de grande envergadura: o teste de hipóteses funciona para investigar relações sociais?

A resposta imediata é: sim.

Relações sociais podem ser estudadas por pesquisas quantitativas, modelos estatísticos, testes de hipóteses, regressões, análises de associação, séries históricas e inúmeras outras técnicas. O Serviço Social, a Sociologia, a Economia, a Demografia, a Ciência Política e a Epidemiologia Social fazem isso cotidianamente.

Todavia, essa resposta está longe de resolver o problema.

A questão teoricamente mais fecunda não consiste em saber se podemos utilizar um teste estatístico para estudar fenômenos sociais. Evidentemente podemos. A pergunta fundamental é outra:

Até onde uma relação social pode ser conhecida quando a transformamos metodologicamente em uma relação entre variáveis?

É precisamente nesse ponto que o debate entre o modelo hipotético-dedutivo e o método crítico-dialético deixa de ser uma controvérsia sobre técnicas de pesquisa e passa a ser uma discussão sobre ontologia, epistemologia e teoria do conhecimento.

O problema, portanto, não é decidir entre “estatística” ou “dialética”, como se fossem instrumentos concorrentes numa prateleira metodológica. Uma regressão não é positivista por natureza, assim como uma entrevista qualitativa não é dialética por natureza.

O problema está em compreender qual função cada procedimento desempenha dentro da investigação e, sobretudo, o que estamos autorizados a concluir a partir dele.

Essa distinção é decisiva.

Antes de discutir hipóteses, precisamos saber de qual hipótese estamos falando

Grande parte das controvérsias metodológicas nasce porque utilizamos a mesma palavra para designar coisas diferentes.

“Hipótese” pode significar, inicialmente, uma proposição teórica provisória.

Por exemplo:

“Quanto maior a precarização das relações de trabalho, maior tende a ser a insegurança habitacional das famílias trabalhadoras.”

Temos aqui uma proposição sobre a realidade que pode orientar uma investigação.

Todavia, “hipótese” também possui um significado estatístico bastante específico.

Podemos formular:

H₀: não existe associação estatisticamente identificável entre precarização do trabalho e insegurança habitacional na população investigada.

Nesse segundo caso, estamos diante de uma hipótese estatística inserida em determinado modelo probabilístico.

Existe ainda uma terceira dimensão: o método hipotético-dedutivo.

Agora já não estamos falando simplesmente de uma proposição nem de uma operação estatística, mas de uma arquitetura de investigação na qual hipóteses teoricamente formuladas permitem deduzir consequências observáveis que serão submetidas à confrontação empírica.

Confundir esses três planos é transformar uma discussão epistemológica complexa em uma disputa terminológica.

Uma pesquisa pode utilizar uma hipótese substantiva sem utilizar um teste estatístico.

Pode utilizar testes estatísticos sem adotar integralmente uma epistemologia hipotético-dedutiva.

Pode, ainda, incorporar hipóteses e procedimentos quantitativos numa investigação orientada por uma concepção crítico-dialética do objeto.

É justamente aqui que começa o problema mais interessante.

Teste estatístico de hipóteses não é sinônimo de método hipotético-dedutivo

Existe uma simplificação extremamente comum nos manuais de metodologia:

“Formula-se uma hipótese, coletam-se os dados e verifica-se se a hipótese foi confirmada ou refutada.”

Essa descrição é problemática inclusive do ponto de vista da própria estatística.

A história da inferência estatística do século XX mostra que aquilo que hoje chamamos genericamente de “teste de hipóteses” resulta da aproximação de tradições distintas.

Ronald Fisher desenvolveu os chamados testes de significância. Neles, o valor-p funciona como uma medida da incompatibilidade entre os dados observados e determinado modelo estatístico, sob certas condições.

Jerzy Neyman e Egon Pearson desenvolveram outra estrutura: uma teoria de decisão entre hipóteses, introduzindo explicitamente conceitos como hipótese alternativa, erros do tipo I e II e poder estatístico.

As duas tradições não eram filosoficamente idênticas. Aliás, Fisher e Neyman travaram controvérsias substantivas sobre a interpretação e a função dos testes.

Posteriormente, elementos dessas tradições foram combinados na prática científica e no ensino da estatística, dando origem ao chamado Null Hypothesis Significance Testing — NHST.

Portanto, nem mesmo “teste de hipótese” designa uma unidade epistemológica tão simples quanto frequentemente se imagina.

Mais importante ainda: um valor-p não informa a probabilidade de a hipótese nula ser verdadeira.

Também não informa, sozinho, a importância substantiva de determinado fenômeno.

Uma diferença socialmente insignificante pode alcançar significância estatística em uma amostra enorme; inversamente, um efeito socialmente relevante pode não atingir determinado limiar convencional de significância numa amostra pequena ou muito heterogênea.

Isso possui uma consequência metodológica formidável.

A estatística pode avaliar propriedades da evidência produzida sob determinado modelo. Não pode, por si mesma, substituir a teoria do objeto.

O número não carrega consigo sua própria explicação.

Popper também é frequentemente simplificado

Há outra confusão quando o método hipotético-dedutivo é reduzido à fórmula:

hipótese → confirmação ou refutação.

Karl Popper, uma das principais referências do falsificacionismo, foi justamente crítico da ideia segundo a qual teorias científicas poderiam ser definitivamente verificadas por acumulação de observações favoráveis.

Em sua concepção, teorias devem produzir consequências suscetíveis de testes severos. Quando resistem a esses testes, podem ser corroboradas provisoriamente, jamais transformadas em verdades definitivamente verificadas.

Pode-se discordar profundamente de Popper — inclusive de sua interpretação do marxismo — sem deformar sua epistemologia.

E isso é importante para nossa discussão porque demonstra que há duas simplificações que precisam ser recusadas simultaneamente:

a caricatura do método dialético como investigação sem hipóteses, testes ou evidências empíricas;

e a caricatura do método hipotético-dedutivo como simples máquina de “comprovar hipóteses”.

A epistemologia é mais incômoda do que os manuais introdutórios costumam admitir.

Marx não investigava sem perguntas, sem pressupostos e sem teoria

Há uma passagem metodologicamente extraordinária no posfácio à segunda edição alemã de O Capital.

Marx distingue explicitamente o método de investigação do método de exposição.

A investigação precisa apropriar-se detalhadamente do material, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e descobrir suas conexões internas. Somente depois desse trabalho torna-se possível apresentar teoricamente o movimento do objeto.

Essa distinção destrói duas leituras igualmente empobrecidas de Marx.

A primeira é aquela que transforma O Capital em uma dedução abstrata construída independentemente da investigação histórica e empírica.

A segunda é aquela que imagina que Marx simplesmente “partia da realidade” sem categorias, problemas teóricos ou elaboração conceitual.

Marx fez exatamente o contrário.

Estudou relatórios parlamentares, legislação fabril, estatísticas comerciais, salários, jornadas de trabalho, crises econômicas, transformações tecnológicas, documentos governamentais, condições sanitárias, mortalidade, trabalho infantil, conflitos trabalhistas e inúmeros outros registros empíricos.

O Capital está longe de ser uma obra que despreza dados.

Entretanto, Marx não acreditava que os dados carregassem espontaneamente dentro de si sua própria inteligibilidade.

O empiricamente visível precisava ser explicado.

E explicar significava descobrir relações que não necessariamente estavam imediatamente disponíveis à percepção.

Essa é uma diferença colossal.

O concreto não é simplesmente aquilo que está diante dos olhos

A Introdução de 1857, posteriormente incorporada aos manuscritos conhecidos como Grundrisse, talvez contenha uma das passagens metodológicas mais importantes de Marx.

Ele utiliza como exemplo a população.

Poderíamos imaginar que começar uma investigação pela população significaria começar pelo concreto.

Mas “população” é inicialmente uma representação extremamente indeterminada.

Para compreendê-la, precisamos conhecer classes sociais, relações de produção, trabalho assalariado, capital, propriedade, divisão do trabalho, troca e inúmeras outras determinações.

O conhecimento realiza, portanto, um movimento de abstração.

Depois disso, realiza-se o caminho inverso: das determinações abstratas retorna-se ao concreto, agora reconstruído teoricamente como unidade articulada de múltiplas determinações.

Daí a célebre concepção marxiana do concreto como síntese de múltiplas determinações, unidade do diverso.

Temos, portanto, dois concretos que não devem ser confundidos.

Existe o concreto real, que existe independentemente de nossa representação.

E existe o concreto pensado, isto é, a reprodução intelectual daquele objeto mediante categorias capazes de apreender suas relações constitutivas.

Isso modifica radicalmente a compreensão da pesquisa social.

O pesquisador não fotografa intelectualmente a realidade.

Reconstrói-a teoricamente.

Aqui aparece o limite epistemológico da variável

Toda variável é uma abstração.

Isso não constitui um defeito.

Abstrair é indispensável para conhecer.

O problema começa quando esquecemos que abstraímos.

Imaginemos uma pesquisa que utilize as variáveis:

renda familiar;

sexo do responsável familiar;

escolaridade;

condição de ocupação;

desemprego;

insegurança alimentar;

déficit habitacional.

Essas variáveis permitem estabelecer distribuições, associações, probabilidades, diferenças entre grupos e modelos explicativos extremamente importantes.

Podemos descobrir, por exemplo, que famílias chefiadas por mulheres apresentam determinada probabilidade maior de comprometimento excessivo da renda com moradia.

Esse resultado pode ser rigorosamente verdadeiro no plano estatístico.

Mas ainda precisamos perguntar:

por quê?

É nesse instante que a relação estatística precisa reencontrar a relação social.

A resposta pode envolver divisão sexual do trabalho, desigualdade salarial, trabalho doméstico não remunerado, responsabilidade pelo cuidado, acesso desigual ao mercado formal de trabalho, estrutura familiar, políticas sociais, mercado imobiliário, segregação urbana, discriminação, territorialização da pobreza e inúmeras outras mediações.

O teste estatístico pode demonstrar uma regularidade.

A investigação social precisa compreender as condições históricas de produção dessa regularidade.

São operações diferentes.

Relação entre variáveis e relação social não são a mesma coisa

Chegamos, então, ao coração da discussão.

Em estatística, podemos perguntar:

X está associado a Y?

Qual é a magnitude dessa associação?

Ela permanece quando controlamos Z?

Qual intervalo de incerteza acompanha nossa estimativa?

Tudo isso é perfeitamente legítimo.

Mas uma relação social, no sentido forte encontrado na crítica da economia política, não é simplesmente uma associação entre dois atributos empiricamente mensuráveis.

Capital e trabalho assalariado, por exemplo, não constituem duas variáveis independentes que ocasionalmente apresentam correlação.

São categorias reciprocamente constituídas dentro de determinada forma histórica de produção.

O capital pressupõe relações sociais específicas.

O trabalhador assalariado também.

A própria mercadoria não constitui apenas uma coisa material dotada de determinados atributos. Ela expressa determinada forma social de organização da produção e da troca.

Por essa razão, Marx frequentemente desloca a investigação da aparência imediata das coisas para as relações sociais que se manifestam através delas.

E aqui encontramos uma distinção ontológica fundamental.

A estatística frequentemente trabalha analiticamente separando propriedades.

A dialética pergunta pelas relações mediante as quais essas propriedades se constituíram historicamente.

Não significa que uma operação seja verdadeira e a outra falsa.

Significa que trabalham em níveis distintos de abstração.

Totalidade não significa estudar tudo

Nesse ponto surge frequentemente outra caricatura.

Se o método dialético procura compreender o objeto em sua totalidade, seria necessário investigar absolutamente tudo?

Evidentemente não.

Totalidade não significa totalização enciclopédica.

György Lukács percebeu com grande clareza essa questão ao sustentar que uma característica decisiva do pensamento marxiano se encontra no ponto de vista da totalidade.

Mas totalidade não significa acumular infinitamente informações.

Significa compreender um fenômeno dentro do sistema de relações que permite explicá-lo.

Uma pesquisa sobre insegurança habitacional não precisa investigar todos os fenômenos existentes na sociedade.

Mas talvez não possa compreender adequadamente seu objeto ignorando salário, mercado de trabalho, preço da terra, crédito, política habitacional, estrutura fundiária, segregação territorial, composição familiar e determinadas formas de atuação do Estado.

A seleção dessas mediações depende do objeto.

Totalidade, portanto, não é quantidade infinita de informações.

É relação.

Mediação: a categoria que falta quando correlação vira explicação

Uma das categorias mais poderosas da tradição dialética é a mediação.

Considere uma associação estatística entre pobreza e evasão escolar.

Podemos descobrir que crianças e adolescentes pertencentes a famílias de menor renda apresentam maior probabilidade de abandono ou interrupção da trajetória escolar.

A informação é relevante.

Mas “pobreza causa evasão escolar” ainda é uma formulação extremamente abstrata.

Como isso acontece?

Pode ocorrer por meio da necessidade de ingresso precoce no trabalho; insegurança alimentar; distância até a escola; transporte inadequado; instabilidade habitacional; responsabilidades domésticas; ausência de equipamentos públicos; violência territorial; precariedade das condições escolares; adoecimento familiar; desigualdades de gênero; discriminação racial.

Esses processos são mediações.

A mediação conecta aquilo que uma análise superficial apresentava simplesmente como dois pontos:

pobreza → evasão.

A explicação crítica procura abrir essa seta.

É dentro dela que frequentemente se encontra a realidade social.

Contradição é algo diferente de correlação negativa

Outro equívoco frequente ocorre quando conceitos dialéticos são traduzidos mecanicamente para a linguagem das variáveis.

Contradição não significa simplesmente duas variáveis que se movimentam em sentidos opostos.

Quando Marx analisa a relação entre capital e trabalho, a contradição não consiste em descobrir que, estatisticamente, quando uma variável aumenta outra diminui.

Trata-se de compreender relações sociais nas quais os polos dependem um do outro e simultaneamente carregam interesses, tendências e movimentos antagônicos.

A relação é interna ao próprio processo social.

Por isso, transformar imediatamente contradições em coeficientes pode empobrecer aquilo que se pretendia compreender.

Novamente: não significa rejeitar coeficientes.

Significa não pedir ao coeficiente aquilo que ele epistemologicamente não pode entregar.

Historicidade: relações sociais possuem data de nascimento

Outra diferença fundamental está na historicidade.

Uma relação estatística pode ser observada num determinado período.

Uma análise dialética pergunta também:

como as próprias categorias que estamos medindo foram historicamente constituídas?

“Desemprego”, “família”, “trabalho”, “propriedade”, “moradia”, “pobreza” e “mercado” não são objetos sociais absolutamente invariáveis ao longo da história.

Suas formas concretas mudam.

As relações entre elas também.

Por isso, uma pesquisa crítico-dialética não deveria perguntar apenas quanto existe de determinado fenômeno, mas como ele se constituiu historicamente e através de quais transformações continua sendo reproduzido.

Uma fotografia pode ser perfeitamente nítida e ainda assim não mostrar o caminho percorrido até aquele instante.

A história procura recuperar o movimento que a fotografia congelou.

Então o método crítico-dialético pode trabalhar com hipóteses?

Aqui podemos responder com maior precisão.

Nada obriga uma investigação crítico-dialética a organizar-se integralmente em torno do teste de uma hipótese previamente formulada.

Mas disso não decorre que hipóteses sejam proibidas ou epistemologicamente incompatíveis com a dialética.

Uma hipótese pode possuir caráter provisório, heurístico e parcial.

Pode orientar determinada etapa da investigação.

Pode ser modificada pelo movimento do próprio objeto.

Pode ser submetida a teste quantitativo.

Pode ser abandonada quando novas determinações aparecem.

Pode representar apenas um momento dentro de uma investigação mais ampla.

É extremamente significativo, inclusive, que Friedrich Engels, ao discutir o desenvolvimento das ciências naturais, tenha atribuído enorme importância às hipóteses.

Isso não autoriza transpor mecanicamente sua reflexão sobre as ciências naturais para as ciências sociais.

Mas torna difícil sustentar que o pensamento dialético possua, por definição, uma espécie de incompatibilidade ontológica com qualquer formulação hipotética.

A questão não é existir ou não existir hipótese.

A questão é saber se a realidade será obrigada a caber nela.

Marx não precisa ser transformado em manual de metodologia

Existe um risco peculiar em parte da tradição marxista acadêmica: transformar algumas indicações metodológicas de Marx numa sequência protocolar.

Primeiro faça isso.

Depois aquilo.

Em seguida procure a contradição.

Depois identifique a mediação.

Finalmente encontre a totalidade.

Temos então uma ironia histórica: uma filosofia fundada no movimento, na historicidade e na crítica transforma-se numa receita metodológica petrificada.

Marx jamais escreveu um manual denominado “As sete etapas do método crítico-dialético”.

Sua metodologia precisa ser reconstruída a partir do próprio movimento de sua investigação.

E esse movimento é muito mais exigente do que simplesmente inserir palavras como “totalidade”, “contradição”, “historicidade” e “mediação” num projeto de pesquisa.

Essas categorias precisam operar na explicação.

Não podem funcionar como ornamentos lexicais.

Uma pesquisa não se torna dialética porque utiliza a palavra “dialética”.

Do mesmo modo, não deixa de sê-lo porque apresenta uma tabela.

O quantitativo não pertence ao positivismo

Talvez seja necessário enfrentar uma confusão particularmente persistente nas Ciências Humanas.

Quantitativo não é sinônimo de positivista.

Qualitativo não é sinônimo de crítico.

Uma pesquisa pode aplicar cinquenta entrevistas e permanecer profundamente empiricista, individualizante e deshistoricizada.

Outra pode utilizar milhares de observações quantitativas para revelar estruturas de desigualdade, exploração e concentração econômica.

O caráter epistemológico de uma pesquisa não pode ser deduzido do formato de seus dados.

Marx fez uso abundante de quantificações.

Taxas.

Jornadas.

Salários.

Preços.

Produção.

População.

Mortalidade.

Comércio.

Tempo de trabalho.

A crítica da economia política seria praticamente inimaginável sem quantificação.

A diferença está no fato de que os números eram incorporados numa teoria das relações sociais.

O número entrava na explicação.

Não ocupava o lugar da explicação.

Também precisamos criticar o fetichismo do valor-p

É curioso que uma crítica ao uso dogmático do teste de hipóteses encontre hoje aliados dentro da própria estatística.

Durante décadas consolidou-se em diversas áreas uma espécie de ritual:

p < 0,05 = resultado importante;

p ≥ 0,05 = resultado irrelevante.

A própria comunidade estatística passou a combater fortemente essa interpretação.

A American Statistical Association advertiu que decisões científicas não deveriam depender exclusivamente da ultrapassagem de um limiar arbitrário.

A discussão contemporânea enfatiza magnitude dos efeitos, intervalos de incerteza, qualidade do desenho de pesquisa, plausibilidade dos modelos, conhecimento acumulado, replicabilidade e interpretação substantiva.

Isso produz uma convergência curiosa.

A crítica dialética diz:

não fetichize o número.

A estatística contemporânea responde:

nem nós.

Talvez seja hora de ouvir ambas.

A estatística pode estar correta e a explicação social continuar errada

Esse talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão.

Podemos realizar corretamente:

a amostragem;

o cálculo;

o teste;

o modelo;

a regressão;

o intervalo de confiança;

a estimativa.

O resultado pode estar matematicamente correto.

E a explicação social ainda pode ser miseravelmente pobre.

Suponhamos que determinado modelo revele que moradores de certos territórios apresentam maior probabilidade de desemprego.

Poderíamos concluir apressadamente:

“morar nesses lugares reduz a empregabilidade”.

Mas o território pode estar condensando diversas determinações:

segregação socioespacial;

distância dos centros econômicos;

transporte público;

racismo estrutural;

distribuição desigual dos investimentos públicos;

estrutura educacional;

redes sociais de acesso ao trabalho;

história da ocupação urbana;

mercado imobiliário;

localização das atividades econômicas.

O coeficiente não está necessariamente errado.

A interpretação é que pode ser mutilada.

O erro surge quando confundimos descrição estatística de uma regularidade com explicação causal da totalidade de relações que a produziu.

Determinação não é determinismo

Outro conceito marxiano frequentemente mal compreendido é determinação.

Dizer que determinado fenômeno possui determinações sociais não significa afirmar que um fator produz inevitavelmente outro.

A realidade social trabalha com tendências, possibilidades, contradições, condições e contraforças.

Uma estrutura pode limitar possibilidades sem eliminar a agência dos sujeitos.

Pode produzir tendências sem produzir resultados idênticos em todos os casos.

Isso também aproxima uma investigação crítica de formas sofisticadas de análise quantitativa.

Probabilidade não precisa ser inimiga da determinação.

Se determinadas condições estruturais aumentam sistematicamente a probabilidade de determinados resultados, isso pode constituir precisamente uma pista para investigar as relações que produzem aquela distribuição desigual de possibilidades.

O erro estaria em transformar a probabilidade encontrada na causa definitiva do fenômeno.

O perigo inverso: um dialeticismo que foge da prova empírica

Se precisamos criticar o positivismo, precisamos igualmente criticar uma deformação existente no campo crítico.

Há trabalhos que invocam totalidade, mediação e contradição como se essas categorias dispensassem demonstração empírica.

Isso é igualmente problemático.

Uma teoria crítica não recebe imunidade epistemológica por possuir boas intenções políticas.

Afirmações sobre a realidade precisam enfrentar a realidade.

O método crítico-dialético não pode converter-se num dispositivo mediante o qual qualquer resultado empírico é reinterpretado de modo a preservar indefinidamente nossas convicções anteriores.

Nesse ponto, inclusive a provocação popperiana permanece útil: uma teoria incapaz de admitir qualquer possibilidade de estar equivocada corre o risco de transformar-se em dogma.

Marx foi um crítico implacável.

Não apenas da sociedade capitalista.

Também dos economistas, dos socialistas, dos filósofos e das próprias formulações teóricas disponíveis em seu tempo.

Preservar o espírito crítico de Marx exige dirigir a crítica igualmente às nossas próprias certezas.

Nem positivismo, nem relativismo: objetividade crítica

A crítica ao positivismo não exige abandonar a possibilidade de conhecimento objetivo.

Existe uma diferença entre afirmar que todo conhecimento é socialmente produzido e afirmar que todas as interpretações possuem o mesmo valor.

Não possuem.

Algumas explicações são mais consistentes com as evidências.

Algumas abrangem maior número de determinações.

Algumas explicam fenômenos que outras apenas descrevem.

Algumas sobrevivem melhor à confrontação com novos dados.

Algumas revelam relações históricas que permaneciam ocultas.

Algumas precisam ser abandonadas.

A perspectiva crítica não precisa escolher entre uma objetividade ingênua e um relativismo absoluto.

O conhecimento pode ser historicamente situado, teoricamente mediado, provisório e ainda assim racionalmente discutível, empiricamente confrontável e objetivamente melhor ou pior fundamentado.

O método deve seguir o objeto, não o contrário

Aqui talvez encontremos uma formulação capaz de reconciliar grande parte da controvérsia.

Não devemos começar perguntando:

“Qual técnica pertence ao método crítico-dialético?”

A pergunta mais fecunda seria:

“Que procedimentos são necessários para apreender adequadamente este objeto?”

Se precisamos conhecer magnitude, utilizamos quantificação.

Se precisamos comparar grupos, construímos comparações.

Se precisamos identificar padrões probabilísticos, utilizamos estatística.

Se precisamos conhecer experiências, realizamos entrevistas.

Se precisamos reconstruir processos, investigamos documentos e séries históricas.

Se precisamos compreender território, produzimos cartografia e observação.

Se precisamos identificar relações institucionais, estudamos legislação, políticas e organizações.

Nenhuma dessas técnicas, isoladamente, define a epistemologia da pesquisa.

O método crítico-dialético aparece na maneira como reconstruímos as relações entre esses materiais para compreender o movimento histórico do objeto.

Isso não é ecletismo.

Ecletismo seria juntar técnicas e teorias incompatíveis sem refletir sobre seus pressupostos.

Pluralidade metodológica é outra coisa: consiste em utilizar instrumentos diferentes subordinados a um problema teórico coerentemente formulado.

Uma pesquisa crítico-dialética pode, portanto, testar hipóteses

Podemos agora oferecer uma resposta mais rigorosa.

Sim.

Uma investigação crítico-dialética pode utilizar hipóteses e testes estatísticos.

Mas um teste de hipótese não constitui necessariamente o princípio organizador de toda a investigação.

Seu resultado também não funciona como tribunal supremo diante do qual a teoria simplesmente aguarda absolvição ou condenação.

O teste produz uma informação situada dentro de determinado nível de abstração.

Essa informação precisa retornar ao movimento mais amplo da investigação.

Suponhamos que nossa hipótese seja:

“Famílias submetidas à informalidade laboral apresentam maior probabilidade de insegurança habitacional.”

Realizamos o estudo.

A associação existe.

Ótimo.

A investigação apenas começou.

Agora precisamos saber:

quais mecanismos produzem essa associação?

Como renda irregular interfere no acesso ao crédito?

Como contratos precários afetam estabilidade residencial?

Como políticas habitacionais selecionam beneficiários?

Como gênero, raça, território e composição familiar atravessam essa relação?

Como a estrutura do mercado de terras interfere no resultado?

Como o Estado participa dessa configuração?

Como essas relações se modificaram historicamente?

Então retornamos ao nosso ponto de partida com um objeto teoricamente muito mais rico.

A hipótese cumpriu uma função.

Não aprisionou a realidade.

Talvez a pergunta inicial precise ser invertida

Perguntar:

“Teste de hipóteses funciona para estudar relações sociais?”

ainda é uma pergunta limitada.

Uma formulação epistemologicamente mais poderosa seria:

“Que dimensão de uma relação social se torna visível quando a transformamos em hipótese estatisticamente testável — e que dimensões permanecem invisíveis?”

Essa pergunta preserva a ciência sem fetichizá-la.

Reconhece o poder da quantificação sem transformá-la em metafísica.

Reconhece a necessidade da teoria sem autorizá-la a ignorar evidências.

Reconhece a historicidade sem abandonar a objetividade.

E reconhece a totalidade sem pretender conhecer tudo.

Talvez aqui esteja uma das contribuições mais atuais do pensamento crítico.

O verdadeiro problema não é testar hipóteses, mas reduzir o real ao que pode ser testado

Uma hipótese constitui um recorte.

Uma variável constitui uma abstração.

Um indicador constitui uma construção.

Um modelo constitui uma representação.

Um teste constitui uma operação lógica e estatística realizada sob determinadas condições.

Nada disso é ilegítimo.

A violência epistemológica começa quando esquecemos que são mediações construídas e passamos a identificá-las com a própria realidade.

Esse é precisamente um tipo de fetichismo metodológico: a criação intelectual passa a aparecer diante de seu criador como se fosse o próprio real.

Aquilo que não pode ser facilmente operacionalizado desaparece.

Aquilo que não pode ser contado torna-se epistemologicamente suspeito.

Aquilo que não cabe no banco de dados deixa de existir.

A relação social é substituída pela variável que deveria apenas representá-la.

É nesse momento que o método deixa de servir ao objeto e o objeto passa a servir ao método.

Marx oferece justamente a possibilidade inversa.

Utilizar abstrações para retornar ao concreto.

Separar intelectualmente para posteriormente reconstruir relações.

Investigar manifestações particulares para compreender determinações mais amplas.

Subir do abstrato ao concreto pensado.

O problema, portanto, nunca esteve simplesmente na hipótese.

Nem no número.

Nem na estatística.

O problema está na pretensão de transformar uma forma particular de apreensão da realidade na medida universal de tudo aquilo que pode ser considerado real.

Conclusão: uma dialética epistemologicamente adulta não teme a estatística

Talvez seja hora de abandonar uma velha guerra metodológica.

De um lado, ainda encontramos a ideia de que somente aquilo que pode ser quantificado, testado e estatisticamente generalizado merece plenamente o nome de ciência.

De outro, encontramos às vezes uma reação simétrica, segundo a qual utilizar hipóteses, variáveis ou testes estatísticos significaria capitular diante do positivismo.

Ambas as posições são pobres.

O positivismo metodológico confunde instrumento com conhecimento.

O purismo dialético corre o risco de confundir crítica com imunidade à confrontação empírica.

Entre esses dois extremos existe um campo muito mais fecundo.

Podemos medir sem reduzir.

Podemos testar sem fetichizar.

Podemos quantificar sem abandonar a história.

Podemos formular hipóteses sem transformar a realidade em serva da hipótese.

Podemos trabalhar com variáveis sem esquecer que relações sociais não se esgotam em relações entre variáveis.

Podemos utilizar estatística e continuar perguntando pelas determinações, mediações, contradições e processos históricos responsáveis pelos padrões encontrados.

Nesse sentido, o teste de hipóteses não precisa ser expulso do método crítico-dialético.

Precisa apenas perder o trono que algumas epistemologias lhe concederam.

Ele pode entrar na investigação como instrumento.

Pode produzir evidências.

Pode negar expectativas.

Pode revelar regularidades.

Pode provocar novas perguntas.

Pode obrigar a teoria a rever algumas de suas formulações.

Mas não consegue, sozinho, reconstruir a totalidade concreta da qual aqueles dados são apenas manifestações particulares.

E talvez possamos resumir toda essa controvérsia numa formulação final:

A estatística pode demonstrar que uma regularidade existe. A crítica dialética pergunta por que ela existe, como se tornou possível, quais relações a reproduzem, quais contradições carrega e sob quais condições históricas poderá deixar de existir.

É nesse deslocamento — da regularidade para a determinação, da variável para a relação, da aparência para a mediação e do dado isolado para a totalidade historicamente constituída — que o conhecimento deixa de apenas registrar o mundo e começa efetivamente a compreendê-lo.

E compreender o mundo, como Marx nos ensinou de maneira tão incômoda quanto fecunda, nunca foi uma atividade intelectualmente inocente.

Referências

AMERICAN STATISTICAL ASSOCIATION. ASA Statement on Statistical Significance and P-Values. The American Statistician, v. 70, n. 2, 2016.

CHATTERJEE, Ipsita. Dialectical materialism: Marx's method in human geography? ACME: An International Journal for Critical Geographies, 2019.

ENGELS, Friedrich. Dialectics of Nature. Moscou: Progress Publishers, edições diversas.

LUKÁCS, György. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Edições diversas.

MARX, Karl. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858 — esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2011.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

OLLMAN, Bertell. Dance of the Dialectic: Steps in Marx's Method. Urbana: University of Illinois Press, 2003.

PEREZGONZALEZ, Jose D. Fisher, Neyman-Pearson or NHST? A tutorial for teaching data testing. Frontiers in Psychology, v. 6, 2015.

POPPER, Karl. The Logic of Scientific Discovery. London: Routledge, edições diversas.

WASSERSTEIN, Ronald L.; LAZAR, Nicole A. The ASA Statement on p-Values: Context, Process, and Purpose. The American Statistician, v. 70, n. 2, 2016.

WASSERSTEIN, Ronald L.; SCHIRM, Allen L.; LAZAR, Nicole A. Moving to a World Beyond “p < 0.05”. The American Statistician, v. 73, supl. 1, 2019.

✍️ Por [Prof. Davi Barbosa Delmont]
Assistente Social | Agrônomo | Pensador Crítico

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Paradoxo da Infraestrutura Elétrica em Habitações de Interesse Social para Comunidades Quilombolas na Bahia: Uma Análise da Rigidez Normativa frente ao Direito à Moradia Digna

O Trabalho de Assistentes Sociais no Enfrentamento ao Assédio no Ambiente de Trabalho: Análise Crítica, Jurídica e Institucional